quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Tyler/Tender

- E aí, conseguiu?

- Sim, consegui.

- E como foi?

- Difícil.

- Como assim, difícil? Só isso?

- Só isso? Foi difícil pra caralho! Tava muito nervoso! Mal conseguia escrever...

- Caralho! Escrever? Você disse que tinha contado!

- Mas eu contei!

- Você falou?

- Não, porra, já disse que escrevi!

- Puta que pariu! Tu escreveu um bilhetinho? “Ah... minha vida tá uma merda, não é culpa sua, você sabe. Mas tenho que dar um fim nisso, e como sou um bosta que não consigo nem te falar isso frente a frente, depois de cinco anos, to deixando esse recadinho do coração”!

- Não tive coragem mesmo! Não bebo mais, não cheiro, nem tomo aquelas pílulas. Ela tirou tudo de mim. Me fez largar tudo que me dava coragem.

- É... Te fez largar tudo que te enganava. Tudo que te dava a ilusão de ser suportável pra outro ser humano. E desde então, você vem com essa choradeira pra cima de mim, ao invés de falar com ela.

- E por que você não me ajudou? Por que você nunca me ajuda? Poderia ter contado pra ela! Mas você se esconde!

- Porque esse é um problema seu! Não meu!

- Que merda! O meu problema é seu também! Você deveria me ajudar... Você deveria fazer tudo que eu não consigo!

- Você é maluco. Maluco e incompetente. Agora vê se toma coragem pra resolver logo isso. Já estamos aqui em cima, é só pular.

- Eu não sei... não sei se quero isso.

- É claro que não quer. É claro que tem medo. Você tem medo de tudo! É por isso que eu estou aqui. É por isso que nós estamos aqui. Cinco anos de análise não resolveram, agora vamos resolver de outro.

- Ela não me entendia.

- Ela te entendia sim! Entendia que você era um viciado de merda, que enchia o nariz de pó, saia pelo mundo fazendo merda! E quando a onda passava, ficava choramingando, tentando convencer o mundo que você era uma vítima inocente!

- Num fode! Você não sabe como minha vida foi dura! Você não sabe como é difícil ser eu!

- Eu não sei? Haha! Você só pode estar de sacanagem...

- Não sabe mesmo! Não sabe o que é estar em pânico. Como é ter as mãos pingando de suor ao falar com alguém. Não sabe como é ter medo de sair na rua. Eu precisava daquilo!

- Você precisava de um choque na cabeça, seu maluco! Ela estava te ajudando, mas pena que não percebeu que sem as drogas, tua cabeça perturbada ia dar outro jeito de se iludir.

- E de quê adiantou? Você nunca assume nada!

- Não assumo mesmo! Eu sou o que você queria ser. Penso, falo e ajo! Faço tudo que você queria fazer. Ou melhor, faria, se eu quisesse. Mas o fato é que não quero! Não quero teu corpo, não quero teu mundo, não quero tua vida! Não vou aparecer, não vou me impor, não vou tomar o controle nunca. Eu sou alguém que não existe.

- Desgraçado...

- Tá com raiva? Você me odeia? Então acaba logo com isso. Pula, e acaba com nós dois!

- Cala a boca!

- Então eu faço, seu merda!

- Não!!!

-...



terça-feira, 11 de dezembro de 2012

(in)Certeza

E se um dia eu acordar, e souber exatamente o que devo fazer?
Abrir os olhos com a certeza de onde devo ir.
Clareza indubitável em cada passo.
Ter a certeza das respostas para qualquer questão.
O que seria de mim?
O que fazer?
O que escolher?
Por onde seguir?
Eu desistira.
Acho que nunca saberia viver num mundo onde eu tenho certeza.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O outro dia

Insone. Passavam das 3h da madrugada, e seus olhos ainda estavam abertos. Pensando, sonhando, rezando. Torcia pelo amanhã, sem saber qual seria. Numa espera perturbadora. Como quem aguarda o final de um livro de mistério ou um policial.
Talvez não haja nada mais perturbador, do que saber que o amanhã chegará. E ele irá! Você sabe, eu sei e ele também.

Só não se sabe como será. Que cara terá o amanhã. Porque pra trás, ficou uma vida. Naquela manhã encerrou-se um ponto. Fechou-se, como a uma caixa, uma era. Despediu-se dos rostos familiares, as coisas que tinha. E com alivio, deu as costas para sua breve história.

Os ponteiros correram, e no girar do relógio, o ponto final virou o de partida. Rompeu a rotina, mas sem saber o que viria. E com a certeza de que algo aconteceria.

Os sons da noite lhe chamavam, vultos rondavam seu quarto. Só o sono não aparecia. Tudo instigava o pensamento, e sua mente se perdia. Fazia planos. Desfazia. Rolava de um lado para o outro. Até que a noite virou dia.

O Sol tomou conta do quarto. Olhou o espelho, lavou os olhos para despertar. Lavou mais uma vez, e outras tantas mais. Ligou o barbeador, percorrendo o rosto, limpando a aparência cansada. Olhou o espelho, e se viu como sempre. Religou o barbeador, e percorreu a cabeça. Livrando-se dos ralos fios que sempre cultivou. Deixando pelo chão.

Olhou-se no espelho. Não entendeu o que viu. Talvez não fosse ele.

Olhou os fios no chão. Pensou “talvez não fosse eu”.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

A carta de Jonathan

Estou indo embora e queria te deixar essas palavras. Coisas que você já sabe, ou deveria saber.

Não estou indo para a guerra, ou coisa assim, mas certamente não retornarei. Então quero deixar bem claro: você gosta dela, e eu também, mas sei que ela só gosta de você.

Pode parecer ruim. E é. É péssimo, mas existem coisas piores no mundo, então estou partindo para encontra-las.

Não sei se você pensou nas coisas assim, mas é assim que elas serão. Então fique ao lado dela, como deve ser, e cuide de cada sorriso, cada abraço, cada querer e da mesma forma cuide de cada lágrima.

Se acaso um dia ela perguntar por mim, diga que não sabe. Diga apenas que parti. Não revele essa carta, nem mesmo uma palavra. Deixe que o tempo apague nossos momentos. Deixa meu rosto se perder nas velhas memórias.

E não me ligue, ou escreva. Não dê notícias. Estarei longe tentando me convencer de que fiz a escolha certa. Tentando acreditar que você é mesmo a pessoa certa para ela. Tentado transformar cada memória nossa em algo ruim, já que esquecidas, nunca serão.

Já que não poderei, faça-a feliz.

Jonathan David


*Redescobrindo as suaves cançonetas de Belle and Sebastian

quarta-feira, 27 de junho de 2012

O dia da marmota

Cubro a cabeça com a coberta, mas não adianta. Eu sei que o despertador tocará em sete minutos. O rádio gritará “Bom dia!” com alegria contagiante de seu locutor. Avisará sobre o trânsito ruim no centro, sobre o acidente na Avenida Brasil, e eu já sei sobre tudo isso.

Agora eu tenho menos de cinco minutos para decidir se ouvirei sobre isso ou não. Desligo o rádio antes do despertador, ou não? Escuto a mesma voz que escuto todos os dias, repetir as mesmas coisas que repete todos os dias, ou não?

7:00

- Bom dia pra você, amigo ouvinte! Mais um dia com vocês, e vamos ver como está o trânsito hoje? É... quem madrugou parece não ter dado muita sorte. Muito congestionamento nas ruas do centro, e um acidente deu um nó no trânsito da Av. Brasil! Tudo parado no acesso a Linha Amarela!

Tudo como ontem. Lá fora uma leve garoa, a temperatura é de 20°C. E eu, sentado na cama, olhava o armário tentando decidir se vestiria uma camisa azul, ou usaria minha única peça preta. Descontente. Mas o que fazer, se não sair? Peguei uma azul mesmo. Como ontem. Como anteontem.

Como toda manhã, tomei um banho quente. Como toda manhã, me queimei na água escaldante que cai do chuveiro, 10 segundos depois do aquecedor ligar. Na pia, travei minha batalha diária com o tubo de pasta de dente.

Esquentei a água para o café, e fui até a porta encarar a verdade. Esse era o momento mais duro do meu dia. Não sei quando começou, mas reparei em meados de fevereiro. Desde então, nem mais um risco no calendário. Parei no dia 11!

Abri a porta com apreensão. Fechei os olhos, abaixei e peguei o jornal. Torci por uma novidade. Uma notícia qualquer que me mostrasse um novo dia. Lentamente abri, e olhei as manchetes: um político acusa seu opositor, um time ganhou, um artista faz merda, outro brilha na novela, abre um novo concurso público, um filme é recorde de bilheteria, os EUA interferem na política de outro país.

Eu já sabia...nada mudou! Nada muda há dias. Mas dentro de mim, uma tola esperança cisma em contestar o óbvio: a marmota nunca deixou a toca. Estou preso num dia que se repete incessantemente.

terça-feira, 29 de maio de 2012

O espelho

O espelho me encara, e hoje eu o temo. Esse quadrilátero mentiroso, pendurado no banheiro, chama minha atenção a cada vez que saio do banho, sempre que lavo as mãos ou escovo os dentes. E me julga toda vez que faço a barba.
Ele me engana, eu sei. Mas é muito convincente. Afirma com propriedade cada ruga ao redor dos meus olhos. Destaca cada fio de cabelo branco. E nunca esquece de mostrar a expressão de cansaço.

Tento fugir. Saio do box com a toalha na cabeça. De costas para o espelho, me visto. Mas antes de terminar, percebo um vulto em movimento suspeito. Viro assustado, e me vejo refletido. O canalha faz brilhar um novo fio branco, que não tenho. Faz eu considerar pintar o cabelo. E faz eu me sentir um pouco mais ridículo.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Amores de Carnaval II

Ela estava tão linda. Sozinha na noite, com sua saia vermelha e o corpete negro. Linda, mas sozinha. Seu olhar buscava o Pierrô, mas se perdia pela festa. Encontrava O sorriso das crianças na folia, as mulheres de pouca roupa, porém mascaradas e os ritmistas, que encantavam o povo com baquetas e peles.

Sentiu-se fora da festa. Seu homem parecia ter ido buscar um banheiro no inferno. Ao seu lado estavam os amigos babacas de Pierrô. Aqueles que sempre a criticam, que a detestavam, mas que ele não abandonava.

A noite sempre a seduziu. O carnaval sempre a encantou. Mas ela estava ali, sozinha, a mercê de um Pierrô ausente. Mas Colombina nunca foi dependente, deixou a calçada, e foi sambar sozinha no meio do bloco!

Linda como sempre, agora brilhava como nunca. Dançava, sorria e encantava. Era a dona do bloco! Seu rebolado seguia o som dos tamborins. E sua beleza era exaltada pelo puxador do samba, “requebra, deusa”!

Dos céus vinham serpentinas multicoloridas, cruzando em todas as direções. Uma chuva de confetes caia leve. E a sua frente surgiu um coração.

- Te encontrei, princesa!

- Arlequim?!

- Princesa do carnaval, tem todo bloco a seus pés. Todo ano...

- Bobo!

- Mas só seu, e não da corte, minha pombinha. Pega meu coração e vem comigo.

- Não posso, você sabe.

- Só sei que é a Carnaval, e nós temos a noite inteira pela frente. Vem comigo que eu vou te dar a melhor festa da sua vida.

- Já tive momentos ótimos contigo, mas meu carnaval com o Pierrô é sempre melhor!

- Você não sabe o que está perdendo.

-Sei sim. É ótimo, mas tenho melhor. Deixa eu ir, beijo!

Colombina circulou o Arlequim, lançando um beijo em sua nuca. Despediu-se com um sorriso. Saiu sambando por, exibindo sua graça. Com seu rebolado vivaz e elegante, deixando uma trilha de desejo a cada passo.

Voltou para encontrar com Pierrô. Leve e contente. Sua graça tomava conta do bloco, e os olhares excitavam seu sorriso. Gostava de ser admirada, de ser o centro das atenções. E caminhava com ritmo, transbordando sedução.

Quebrada por um puxão no braço.

- Porra, onde você tava?

- Aqui do lado. Me solta!

- Mas saiu e não falou com ninguém!?

- É, saí sim! Você diz que vai mijar e demora um século pra voltar, e quer que eu perca o bloco inteiro te esperando? Além disso, não devo satisfação aos babacas dos teus amigos.

- Não aguenta ficar parada, né? Tem que se exibir!

- Deixa de ser neurótico!

- Tu encontrou com aquele Arlequim filha da puta, né?!

- Encontrei sim, por quê?

- Tu não muda, vagabunda!

- Nem você, seu maluco! Mania de perdedor!

- Chega! Vamos pra casa!

- Vai sozinho, não vou perder meu carnaval por causa das suas neuroses!

- Volta aqui! Volta... meu amor!

E Colombina nem olhou pra trás. Não tinha por quê. Gostava de festa e felicidade, e sabia onde encontra-la. Voltou para o meio do bloco, para perto da bateria. Para o seu lugar de destaque! Voltou a sambar, e encantar. Não demorou para que seu admirador a reencontrasse.

- Sabia que você voltaria, pombinha!

- Cala a boca e me beija!

E beijou. Era o que Arlequim sabia fazer, e Colombina adorava! A liberava, ardia seu peito.

O beijo se estendeu por versos, estrofes e refrãos. Columbina tinha tudo que queria: festa, paixão e atenção. Pegou o coração de Arlequim, prendeu em sua meia-calça e curtiu sua noite.

Dançou por horas. Matou a sede em sua garganta com cerveja e, a de seu corpo com Arlequim. E seguiu assim até o ultimo batuque. Quando o bloco parou, a festa definhou e sua majestade também. Não havia mais motivo para estar naquele lugar, pois não tinha mais pra quem brilhar.

Devolveu o coração de Arlequim. Deu-lhe o ultimo beijo, e se despediu dizendo “nos vemos por aí”.

Caminhou solitária para casa. Feliz pela noite, pelas conquistas. A madrugada lhe brindava com uma brisa, que resfriava seu corpo, depois de toda excitação do bloco. Pegou sua bolsa e conferiu o celular. 32 ligações perdidas, todas de Pierrô. Ignorou todas e mudou seu rumo, foi para casa de uma amiga.

A manhã seguinte raiou preguiçosa e meio vazia. Colombina repensou sua noite, desanimou do Carnaval. Decidiu ficar em casa, assistir a festa dos outros pela TV. Mas sua amiga insistiu e a convenceu que não há Carnaval sem Colombina.

Saiu. Reencontrou com amigos e amigas. Conquistou tantos outros. Não resistiu e fez o que mais gosta de fazer, brincou e dançou, seduziu e até se divertiu! Afinal, não há Carnaval sem Colombina, e não há Colombina sem Carnaval. A terça-feira passou tranquila, como deveria, mas a noite surgiu o vazio.

Ela voltou para casa e não encontrou seu amado. Pensou ter estragado tudo dessa vez. Pensou que não teria volta. Pegou o telefone, mas desistiu, faltou coragem. Abraçou o travesseiro e dormiu com o lamento.

“Por que eu sou tão idiota?”

A madrugada passou lenta e o sono intranquilo. Interrompido por ruídos do vento na janela, os sons das estripulias de foliões na rua e sonhos perturbadores. Nas primeiras horas da Quarta-feira de Cinzas, a agonia se transformou em ansiedade ao toque de seu telefone.

- Oi, sou eu... desculpa, fui um babaca.

- Foi sim. Volta pra casa.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Amores de Carnaval

Animado, ia driblando a multidão, as serpentinas e as malditas crianças com latas de espuma. Mas ao voltar do banheiro, Pierrô não encontrou sua amada. Perguntou aos amigos, e as informações eram desencontradas.

A animação foi baixando, a música do bloco começava a irritar. Depois de eternos 20 minutos, Colombina aparece.

- Porra, onde você tava?

- Aqui do lado.

- Mas saiu e não falou com ninguém!

- Você foi ao banheiro, e eu não tenho que dar satisfação aos teus amigos.

- Foi fazer o quê?

- Deixa de ser neurótico!

- Tu encontrou com ele, né?

- Pára com isso...

- Tu encontrou com aquele Arlequim filha da puta, né?!

- Quer saber? Encontrei sim! E agora vou atrás dele, porque não vou perder meu carnaval com as suas neuroses!

- Volta aqui! Volta... Filha da puta!

E Colombina nem olhou pra trás. Sumiu na noite. Deixou Pierrô com a lágrima no rosto e o coração perdido no meio do bloco.

Ele caminhou sozinho, abandonado, também abandonou os amigos. Preferiu ao seu lado a tristeza e o rancor. A cada passo alimentando a raiva por Colombina, o ódio por Arlequim, e a pena de si mesmo. Caminhou a noite inteira, ao chegar em casa, apagou.

Dormiu por mais de dez horas. Acordou sem querer abrir os olhos. Com raiva do Sol, que forçava entrada pela janela. Pensava em sua amada, e não queria mais viver. Desejou dormir pra sempre, para não pensar mais em seu amor, pra nunca mais sentir aquela dor. Queria esquecer que foi abandonado. E quanto mais força fazia para esquecer, mais decepções lhe vinham à mente. Lembrou que aquela não foi a primeira vez. Lembrou das muitas vezes que Colombina o deixou. E resolveu levantar.

- Foda-se, é carnaval!

O Pierrô apaixonado chorou sim, pelo amor da Colombina, mas por pouco tempo. Apagou a lágrima da maquiagem, quebrou seu jejum com uma lata de cerveja e abriu um sorriso. Pegou um batom vermelho de Colombina, desenhou um novo coração no peito e saiu pra folia!

Trilhou as ruas seguindo o som dos tambores. Encontrou com a bateria, e foi saudado ao som dos tamborins. A batida do surdo fez seu peito tremer. O repique balançou suas pernas e a caixa botou o Pierrô pra sambar.

Distribuiu alegria, com seu novo sorriso. Encontrou seus amigos, mesmo sem ter marcado. E a cada encontro, brindava a amizade e gritava “hoje eu vou tomar um porre, não me socorre, porque eu tô feliz!”!

A banda tocava que “essa história de gostar de alguém, já é mania que as pessoas têm”, e o Pierrô, finalmente, entendia aqueles versos. Mas esqueceu tudo, quando viu, salpicada de confetes, vestindo um pequeno tutu, a coisa mais bela de todo carnaval. Com nariz vermelho, olhos arrebatadores e um sorriso pintado. Uma musa de pancake.

Os dois se entre olharam. Ela dançava de longe, olhava, depois disfarçava e sorria com olhar meigo. Ele não perdia contato, nem por nenhum segundo, seguia fixo na direção dela.

Quando chegou a seu lado, estendeu a mão. Ela virou o rosto, sempre sorrindo, e atirou-lhe confetes. Dançou ao redor do Pierrô, e falou ao pé de seu ouvido “faz meu carnaval”.

E ele fez.

Tomou a em seus braços, e fez da musa seu amor de carnaval. A cada beijo borrando cada vez mais as maquiagens. Pulando de um bloco para outro, sem se soltar. Percorrendo o pescoço dela com sua boca, descobrindo com as mãos o que o minúsculo tutu tentava esconder.

Mal trocavam palavras. Não faziam perguntas sobre quem eram, nem mesmo quais seus nomes. Não precisavam saber. Só pensavam no próximo beijo, no próximo bloco, no próximo carinho, no próximo samba. Até ela querer mais.

- Vamos pra minha casa.

Não foi um pedido. O Pierrô não respondeu, simplesmente foi. Pois era isso que ele também queria.

A noite foi tão intensa quanto o dia. Só que sem pudor. Sem ninguém para olhar, reprimir ou desejar também. Só os dois. Até o gozo.

Pela manhã, o ele levantou cautelosamente, para não acordá-la. Vestiu-se já fora do quarto, e foi embora, sem se despedir. No caminho, parou na padaria da esquina para tomar café. Pensou no seu amor de carnaval, e lembrou de sua amada.

Era Quarta-feira de Cinzas. As ruas tinham cara de ressaca. Do balcão da padaria, às oito da manhã, observou o que sobrou dos foliões. Pessoas vagando como zumbis, com as fantasias despencando, ambulantes dormindo ao lado dos isopores e garis chegando para recolher o resto da festa.

O Pierrô sentiu um vazio. Olhou para o peito, e viu que o coração desenhado era só um borrão. Pegou o celular, e ligou para Colombina.

- Oi, sou eu...desculpa, fui um babaca.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O bom dia

O Sol tentava invadir o quarto, com traços dos raios por entre as venezianas. Ele começava a perceber o novo dia. Sentiu a mão dela acariciando seu peito, e um bem estar tomou conta de seu corpo.

Um beijo perto da orelha, seguido das palavras sussurradas.

- Você vai ser pra sempre meu!

Ele abriu um sorriso primeiro, depois os olhos. Respondeu com um simples “eu vou”, tão baixo quanto o sussurro dela. Mas também tão sincero quanto.

Tomou-a em seus braços, beijou sua cabeça e voltou a dormir.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O caminho dela

De seus olhos, nenhuma lágrima escorreria. Prometeu para si mesma. Cansou-se das noites mal dormidas ao lado dele, e das não dormidas longe dele. Cansou-se de ser a única pessoa da relação. De ser abdicada.

Ela cansou de esperar pelos pequenos momentos, que eram cada vez mais raros, e avisou: estou indo embora.

Ele se viu perdido. Seu porto seguro o abandonou. Acuado, gritou, brigou e depois de sentir o vazio, finalmente entendeu o que fizera, e sofreu sozinho.

Mas ela já estava longe. Tão longe quanto seus pensamentos a levaram. E seu mundo eram possibilidades e oportunidades. Era certo que na lembrança ficaram os pequenos (e raros) momentos. Mas o peito transbordava leveza.

Tomou uma nova direção. Estava mais confiante, e a cada passo mais bonita.

O cabelo de um brilho inconfundível, os olhos ainda mais sedutores e o sorriso capaz de abrir qualquer porta.

E, dentre tantos caminhos a seguir, ela escolheu o mais aberto. Com mais escolhas. Sem olhar pra trás, pois sabia o que estava lá, foi viver.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Prova de amor

Eu a peguei pelas mãos
E a agarrei
Tirei seu cabelo do ouvido
E confessei
É teu o meu amor
Não o rejeite

Saquei meu punhal
Então olhe bem
Rasguei o meu peito
Por isso a amarrei
Então não chore, meu bem
Pois esse é teu presente
Te entrego meu coração
E meu sangue quente

Ela respondeu com um grito
De desespero
E lagrimas jorraram
Pelo seu rosto inteiro
É esse o meu amor,
Não o rejeite

Amarrada em minha cama
Ela se debatia
Chorando e implorando,
Mas não a soltaria
Pus minha prova de amor,
ainda pulsando
Em seu corpo nu
Encharcado em sangue

Com um buraco no peito
Me declarei
E vendo sua repulsa
Agonizei
É teu o meu amor
Nã o rejeite
É teu o meu amor
Nao o rejeite