domingo, 19 de setembro de 2010

O Treino

Vinha com a cara fechada. Corria, ofegante, em minha direção. E eu, temendo o pior, devia pará-lo.

Malditas noções de físicas! Malditos 1,70m e 70kg! Maldita consciência de que a resultante do choque teria mais de 100kgf e minha direção, mas em sentido contrário! Mas fui... Posicionei-me, abaixei e fui...

Cai.

Senti o impacto, e cai. Ele não tomou conhecimento do frágil obstáculo em sua frente, e seguiu seu destino.

Eu continuei caído. Na lama. Tonto. Pensei “o que estou fazendo aqui?”. Sentido futuros hematomas desenhando-se em meu ombro.

“Foda-se!”

Levantei-me. Contrai todo o dolorido corpo, fechei a cara. Veio o segundo. Posicionei-me, abaixei e fui...

Cai novamente.

Era apenas a terceira vez em que pisava num campo de Rugby. Ainda não entendia os inúmeros impedimentos. Não entendia os “Rucks” e os “Mauls”. Mas acima de tudo, não entendia os meus acertos.

Não era a recepção correta de um passe, agarrando a bola firme, segurando-a como um bebê. Nem o posicionamento sempre atrás da linha da bola. Livre. Regulando a distância, conforme a aproximação da oposição. Era a corrida! Firme, reta, sempre buscando a linha de fundo.

Encarava a marcação com o ombro. Aquele mesmo ombro, lar de futuros hematomas. Posicionado como um escudo, projetado pra frente, atacando aos adversários como heróis de filmes de ação arrombam portas. Trombando até cair. Nem que fosse na primeira porrada...

Então soltava a boa, como manda a regra que eu li na Internet. Encolhia-me no chão, enquanto ao meu redor era formado um Ruck, ou um Maul. Ainda não sei a diferença. Quando levantava, sempre ouvia um “boa”, “isso aí”. Era foda! Dava orgulho. Mesmo sem nunca ter realmente entendido o porquê.

Mas naquele momento não era eu atacando. Não era eu que tinha que percorrer aquela rota, enfrentando a oposição com meu escudo. Naquele momento, naquele exercício, eu era a oposição. E era enfrentado com um escudo muito mais poderoso.

Tirei a lama do braço. Ajeitei as meias, posicionei-me novamente. Mas dessa vez não iria apenas esperar.

Ele partiu. Com a mesma cara fechada. Com mesmo ombro à frente. E tinha a certeza que passaria por mim da mesma maneira. E eu, com a mesma certeza de que iria levar a pior, engoli o medo e fui...parti em direção a ele!

A aceleração era maior. A força resultante seria maior, e certamente eu a sentiria desde o ombro até o calcanhar, mas dessa vez ele não passaria!

Eu pisava firme, cravando as travas das chuteiras na lama. Cavando uma vala em cada passada. Corria reto, mirando a cintura do meu adversário, como mirava a linha do in goal. Aquele era o meu objetivo, era onde eu deveria chegar. Era por ali que eu finalmente iria tacklear o atacante e provar pra mim mesmo que merecia os elogios.

A um passo dele, abaixei. Contrai bem o corpo, travei os pés no chão. Senti o impacto no ombro. Agarrei suas pernas, um pouco acima do joelho e segurei o mais forte possível. Cai. E, comigo agarrado em suas pernas, ele caiu junto. Tackle.

Venci!