Animado, ia driblando a multidão, as serpentinas e as malditas crianças com latas de espuma. Mas ao voltar do banheiro, Pierrô não encontrou sua amada. Perguntou aos amigos, e as informações eram desencontradas.
A animação foi baixando, a música do bloco começava a irritar. Depois de eternos 20 minutos, Colombina aparece.
- Porra, onde você tava?
- Aqui do lado.
- Mas saiu e não falou com ninguém!
- Você foi ao banheiro, e eu não tenho que dar satisfação aos teus amigos.
- Foi fazer o quê?
- Deixa de ser neurótico!
- Tu encontrou com ele, né?
- Pára com isso...
- Tu encontrou com aquele Arlequim filha da puta, né?!
- Quer saber? Encontrei sim! E agora vou atrás dele, porque não vou perder meu carnaval com as suas neuroses!
- Volta aqui! Volta... Filha da puta!
E Colombina nem olhou pra trás. Sumiu na noite. Deixou Pierrô com a lágrima no rosto e o coração perdido no meio do bloco.
Ele caminhou sozinho, abandonado, também abandonou os amigos. Preferiu ao seu lado a tristeza e o rancor. A cada passo alimentando a raiva por Colombina, o ódio por Arlequim, e a pena de si mesmo. Caminhou a noite inteira, ao chegar em casa, apagou.
Dormiu por mais de dez horas. Acordou sem querer abrir os olhos. Com raiva do Sol, que forçava entrada pela janela. Pensava em sua amada, e não queria mais viver. Desejou dormir pra sempre, para não pensar mais em seu amor, pra nunca mais sentir aquela dor. Queria esquecer que foi abandonado. E quanto mais força fazia para esquecer, mais decepções lhe vinham à mente. Lembrou que aquela não foi a primeira vez. Lembrou das muitas vezes que Colombina o deixou. E resolveu levantar.
- Foda-se, é carnaval!
O Pierrô apaixonado chorou sim, pelo amor da Colombina, mas por pouco tempo. Apagou a lágrima da maquiagem, quebrou seu jejum com uma lata de cerveja e abriu um sorriso. Pegou um batom vermelho de Colombina, desenhou um novo coração no peito e saiu pra folia!
Trilhou as ruas seguindo o som dos tambores. Encontrou com a bateria, e foi saudado ao som dos tamborins. A batida do surdo fez seu peito tremer. O repique balançou suas pernas e a caixa botou o Pierrô pra sambar.
Distribuiu alegria, com seu novo sorriso. Encontrou seus amigos, mesmo sem ter marcado. E a cada encontro, brindava a amizade e gritava “hoje eu vou tomar um porre, não me socorre, porque eu tô feliz!”!
A banda tocava que “essa história de gostar de alguém, já é mania que as pessoas têm”, e o Pierrô, finalmente, entendia aqueles versos. Mas esqueceu tudo, quando viu, salpicada de confetes, vestindo um pequeno tutu, a coisa mais bela de todo carnaval. Com nariz vermelho, olhos arrebatadores e um sorriso pintado. Uma musa de pancake.
Os dois se entre olharam. Ela dançava de longe, olhava, depois disfarçava e sorria com olhar meigo. Ele não perdia contato, nem por nenhum segundo, seguia fixo na direção dela.
Quando chegou a seu lado, estendeu a mão. Ela virou o rosto, sempre sorrindo, e atirou-lhe confetes. Dançou ao redor do Pierrô, e falou ao pé de seu ouvido “faz meu carnaval”.
E ele fez.
Tomou a em seus braços, e fez da musa seu amor de carnaval. A cada beijo borrando cada vez mais as maquiagens. Pulando de um bloco para outro, sem se soltar. Percorrendo o pescoço dela com sua boca, descobrindo com as mãos o que o minúsculo tutu tentava esconder.
Mal trocavam palavras. Não faziam perguntas sobre quem eram, nem mesmo quais seus nomes. Não precisavam saber. Só pensavam no próximo beijo, no próximo bloco, no próximo carinho, no próximo samba. Até ela querer mais.
- Vamos pra minha casa.
Não foi um pedido. O Pierrô não respondeu, simplesmente foi. Pois era isso que ele também queria.
A noite foi tão intensa quanto o dia. Só que sem pudor. Sem ninguém para olhar, reprimir ou desejar também. Só os dois. Até o gozo.
Pela manhã, o ele levantou cautelosamente, para não acordá-la. Vestiu-se já fora do quarto, e foi embora, sem se despedir. No caminho, parou na padaria da esquina para tomar café. Pensou no seu amor de carnaval, e lembrou de sua amada.
Era Quarta-feira de Cinzas. As ruas tinham cara de ressaca. Do balcão da padaria, às oito da manhã, observou o que sobrou dos foliões. Pessoas vagando como zumbis, com as fantasias despencando, ambulantes dormindo ao lado dos isopores e garis chegando para recolher o resto da festa.
O Pierrô sentiu um vazio. Olhou para o peito, e viu que o coração desenhado era só um borrão. Pegou o celular, e ligou para Colombina.
- Oi, sou eu...desculpa, fui um babaca.
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