sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Partido

Pobre menina abandonada. Sozinha na varanda de casa, olhando ao longe. O rosto ainda vermelho e úmido. Naquela manhã, seu marido a deixara, dizendo não ter mais que fazer ali.

Nós os conhecíamos. Muito bem por sinal. Vimos o primeiro encontro. Vimos a paixão nascer. Fomos os primeiros a saber do casamento. E também que tudo ia mal.

Dois anos de convívio sobre o mesmo teto não lhes fez bem. Ele parecia ter mudado, nunca queria leva-la a lugar nenhum. Estava sempre cansado, não gostava de conversar. Ela chorava e se dizia solitária. Ele nunca a entendia. E quando ela insistia, brigavam.

A ela, só restavam as lágrimas com os amigos, já que o marido não lhe dava ouvidos. E só nós recebíamos seus anseios. Só nós pudemos ver seu rosto mudando, quando saia daquela casa e encontrava a vida. Enquanto ele estava trabalhando, viajando, ou ocupado demais.

E foram longos oito meses até que ela tomasse coragem, e despejasse toda sua frustração de seu peito! E Eram tantas palavras que o atingiam, que ficou atordoado. Negava as reclamações com respostas gaguejadas. Até que percebeu que aquilo não era um pedido de atenção, era um comunicado de despejo.
E ele saiu. Ressentido e com um buraco no peito. Apesar de tudo, ele a amava.

E nós percebemos isso. Dessa vez não fomos os primeiros. Certamente não fomos os últimos, mas o fato que percebemos muito tarde.

Ao reencontra-lo e ver que ele ainda não entendia o que tinha feito de errado. Notar o carinho com que dizia o nome dela, e seu rosto se iluminando a cada lembrança de seus momentos.

E nossos encontros passaram a ser mais frequentes, já que ele não precisava trabalhar tanto quanto antes. Foi quando começamos a perceber o porquê sua ausência em casa. Perceber que ele queria descansar em casa, junto da sua mulher.

Num desses encontros, vimos a decepção apertar seu peito, quando contamos que ela estava com um novo amor. E que esse amor, já era alguém conhecido. Alguém pra quem ela chorava suas mágoas.
Ele então admitiu a derrota.


E a nós, sobrou o arrependimento. De todos os conselhos errados que demos a ela. De não perceber que ele trabalhava demais para sustenta-la. Pagar a casa, e sua faculdade. Que ele evitava os conflitos para tentar aproveitar os poucos momentos juntos. E de, assim como ele, não ter aceitado que ela já não o amava há tempos.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Downhill

Era a colina mais alta. Com uma inclinação de 40°, aproximadamente. A descida era irregular. Terra batida e com muitas pedras. Não era para ciclistas amadores! Antes da metade você poderia chegar a 60km/h, a velocidade final era próxima dos 90. Acionar os freios não era opção, o tombo seria certo!

Duas mãos no guidão, pé direito no pedal e esquerdo no chão. Os olhos cerrados decoravam o caminho. O trajeto era escolhido com cuidado, do cume. Observando atentamente as depressões, pedras e obstáculos.

Daquele ponto, do ponto mais alto, a descida parecia uma péssima ideia. Mas aquele era seu desafio. Ele não seria o primeiro, outros dois já a fizeram. Ele era o mais jovem, mas não havia em seu rosto qualquer traço de receio. Sabia que era possível. Sabia que estava pronto.

Pressionou os freios. Ajeitou-se no quadro de sua Caloi Cross Freedom. Com o peito do pé direito, levantou um pouco o pedal. Inspirou fundo e contou mentalmente...

“3... 2... 1!”

Em movimento simultâneos, soltou os freios, deu impulso com o pé esquerdo e pisou forte no pedal da direita, inclinado o corpo para frente. Soprou todo ar pela boca. Corrigiu a postura. Cinco pedaladas fortes, colocando todo peso do corpo em cada uma delas. Estabilizou. Os olhos na pista, tentavam seguir o trajeto planejado. Três pedaladas. Não há amortecedor. O choque do pneu com as pedras desviavam o curso. Os buracos o sacudiam. A velocidade fazia seus olhos secarem. Três pedaladas. Inclina para esquerda. Atinge 70km/h. Aperta os punhos com toda a força. O garfo vibra. Guidão vira. Ciclista cai.

Ele perdeu o controle sobre sua bicicleta, e voou sobre ela. Sentiu na pele toda irregularidade do solo. Cada pedra daqueles tantos metros em que rolou. Cada grão da terra que entrou em seus cortes.

A queda mais feia de sua vida, até então. Mesmo que não tenha sido realmente da colina mais alta. Era apenas uma ladeira. E nem tinha ideia da inclinação ou de como se media. Mesmo não tendo sido a 70km/h, talvez não tenha chegado a 20km/h. Mas o fato é que quando se tem sete anos, a próxima ladeira é sempre a mais alta. A velocidade é medida pelo vento no rosto. Os tombos são sempre os piores. E eram eles que registravam a história.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Condenado

Os braços abertos, com os cotovelos formando um ângulo reto perfeito. As mãos espalmadas, tensas, mostrando claramente que estava desarmado e sem nenhuma intenção de reagir. O joelho direito tocava o chão, deixando-o em posição de submissão.
Mas nada mostrava a derrota melhor que seu rosto. Olhos escancarados, que tremiam de um lado para o outro, mas nunca fechavam. Nem uma piscada. A testa suada, transbordando aflição. A boca tentava abrir, mas a mandíbula não se mexia. Queria gritar “não”. Queria dizer “espera”, mas a boca foi secando desde os lábios até a garganta, e se recusava a engolir. E permaneceu estático.
Nada mexia, nem a seu redor. Desde que a porta abriu com um chute. Desde que, num movimento, saltou da cadeira e ajoelhou no chão. Precisamente às 17 horas e 37 minutos. Desde esse momento, tudo parou. Até os ponteiros do relógio.
Só uma coisa ainda se movia: seu pensamento! Ajoelhado em rendição, apavorado, encarando o lado errado da mira, revisou toda sua vida. Pensou nas discussões de trânsito, brigas com vizinhos, com garçons, nas humilhações juvenis e não encontrava a resposta.
Não via saída. Encontrara seu algoz, que o julgou e condenou. Foi subjugado por um dedo em riste apontado para sua testa. O indicador cruel carregado de ódio. Não precisava ser verbalizado, o sentimento era evidente. Os olhos saltavam, e o peito se enchia em revolta. Até que transbordou, e a boca disparou um brado:
- EU NÃO CONCORDO COM VOCÊ!

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O toque

Dizem que quando a gente está olhando, ele nunca toca. Mas já tentei esquece-lo no bolso, ou em cima da mesa, fora do meu campo de visão, com a tela virada para baixo. Não funciona. Não tem nada a ver com a visão, pois ele sabe que é observado além dos meus olhos. Sabe que minha atenção está toda nele, seja com a mão pousada em cima, ou no ouvido totalmente concentrado em seu toque.


É como meu pai falava do leite: O tempo de fervura do leite é de uma olhada para o lado. A desatenção é o que faz transbordar da leiteira. Não o relógio. Não são 5,10 nem 30 minutos, é só uma piscada, um momento de desconcentração.

Mas hoje, essa analogia não faz sentido, pois ninguém ferve mais o leite. É capaz dessa geração, que não sabe o que é um tubo de TV, nem saiba porque se fervia o leite. Assim como eu não sabia o que era uma válvula de TV. Os tempos são outros.

Hoje a grande preocupação é se o sinal de do celular está bom. Assim, recebo mensagens, leio e-mails, e ele pode receber as chamadas. Assim ele pode tocar normalmente. Pois é o toque que anseio! Eu o prevejo, pressinto e ele não vem.

Pego o celular, checo, busco uma chamada perdida, ou mensagem não lida e nada. Verifico a rede, desligo e religo. Pode ser um bug do sistema operacional.

Mas o fato é que ele não toca. Pior. Ela não ligou.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Coração embriagado

Dentro do peito o coração acelera. Olhos brilham na direção da pista. A pouca luz oscila e brilha, sobre o objeto daquela paixão repentina.

Todo passo agora é inseguro. Todos os sinais apontam pra frente. O passado que lhe assombra foi afogado e reprimido, mas a coragem ainda assim reluta.

Se desequilibrando até ela, declarando aos poucos seus excessos. Ansiando o toque desastrado, encarando com brilho nos olhos de álcool. Abraçando-a com toda paixão de um coração embriagado.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Questão


"Quanto tempo levaria, até fazer algo realmente idiota?"

Talvez essa pergunta nunca pudesse ser respondida. Na verdade essa pergunta nunca foi feita. Nem no primeiro dia. Nem no ultimo dia. Nem nos oitenta e tantos dias que se passaram até então.

Mas ela estava lá. Perdida no meio dos pensamentos e planos futuros. No meio das decisões recentes. Intrínseca no ponto final que deu a seu cotidiano. Ela se insinuava segundos antes de cada ato inconsequente, mas nunca se revelava por completo. Afinal, a decisão era ser inconsequente! Ele escolheu viver pra si, com toda irresponsabilidade e egoísmo que isso acarreta.

E assim foi por oitenta e tantos dias. No momento em que foi lembrado o porquê daquela decisão. Quando, involuntariamente, reviu tudo o que quis deixar pra trás, todas as amarras do passado, com todos seus sabores e amarguras. Ele finalmente ignorou o que ainda respeitava e, abraçou definitivamente o caos!

E agora? Quanto tempo até ser cobrado?

quarta-feira, 27 de março de 2013

Diálogo


Você me perguntava “quando?”
Eu só dizia “até mais tarde”.
Você não entendia como.
E eu me escondia em disfarce.

Você me pedia um pedaço.
E eu te pedia mais calma.
Você então mostrou o espaço
E eu não respondi mais nada.