sábado, 17 de dezembro de 2011

O piano andou bebendo

Para Tom Waits. Obrigado!


O piano andou bebendo. De novo. E tropeçou nas notas, não chegou a tempo, tive que vir sozinho.

Desculpe se não tenho harmonia. Fiquei sem meu parceiro. Porque o piano andou bebendo. Me deixou aqui na chuva.

Sei que disse que ficaria bem. Que aguentaria esperar sua volta. Mas quando sentei a beira das teclas, as oitavas eram outras, os acordes eram tortos e todas s canções soaram tolas.

Já disse, o piano andou bebendo! E me deixou perdido. Caminhei até sua porta, para me encontrar nos seus olhos. Porque o piano andou bebendo. Não eu.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Nada

Me perdi pelas ruas, e por elas larguei minhas palavras. Abracei de novo os versos, pois esqueci como rimar em prosa.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Cervejas Possíveis VI

Em meio a fumaça de charutos, tu ardes de desejo. Vai se impondo, exalando paixão, seduzindo com o cobre de seu cabelo. Beija apaixonada, provoca com a vontade que tem de conquistar.

E me domina fácil... Porque é carnal! Porque esquenta meu sangue! Inigualável, defumada, rauchbier.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O vencedor


Por entre as tamarineiras, o Sol brilhava, naquela manhã de domingo. Era outono, e a temperatura era amena. Sentia um friozinho arrepiando de leve a pele, como aquele que se sente logo ao entrar numa agência bancária em dias de verão.


Sentia-me bem. Confiante. Tinha toda minha família na torcida. Tinha uniforme, número no peito, tênis de corrida e mais de 50 adversários a superar.


O circuito era simples, oval. Iniciava em pista plana, curva para esquerda, depois um ligeiro aclive, reta, curva para direita, pequeno declive e a linha de chegada em pista plana. Cavaletes isolavam a rua. Placas indicavam o percurso.


Já tinha toda minha estratégia de corrida. Meu treinador, meu pai, havia me instruído bem. Posicionei-me na terceira fila. A frente de corredores de pouca aceleração, para não sofrer pressão na largada, assim teria espaço, podendo acumular energia para a subida, mantendo o ritmo.


Dada a largada!


E tudo correu como planejado. As primeiras filas saíram desesperadas. Os que não foram tão rápidos acabaram sendo atropelados por outros corredores. Consegui evitar esses. Atrás de mim, adversários mais pesados ou fora de forma, não eram ameaça. Segui no meu ritmo, passada após passada, naquele asfalto antigo.


Na primeira curva, as coisas começavam a se decidir. A virada em 180° afunilou a pista, aproximou primeiro e segundo grupo, reduziu o da prova ritmo momentaneamente. Mas o meu não. Abri a curva e fugi do tumulto.


A essa altura, quando iniciou a subida, eram oito a minha frente. Uns forçavam as articulações na parte mais complicada do circuito. Os desesperados já mostravam os primeiros sinais de cansaço. E eu seguia meu ritmo, conforme a estratégia do meu treinador.


Seguia firme, em minha trajetória. Vencendo o pequeno aclive, ignorando as falhas do asfalto antigo. Mantendo o ritmo. E naqueles nove metros, três adversários foram deixados para trás, ultrapassados sem problemas.


Então veio a segunda inversão. E com ela um fato que não foi planejado. Novamente os corredores afunilaram o percurso, e na minha tentativa de manter-me livre, vi minha vitória escapar. Do pelotão mais distante, vinha como um louco, como uma locomotiva desgovernada, o corredor que se fosse treinado pelo meu pai, seria o campeão.


Ele havia largado das ultimas posições. Não soube escolher o lugar, foi atrapalhado por corredores mais lentos logo no início. Na primeira curva pegou transito novamente, não tinha estratégia nenhuma. Então, quando viu a pista livre, logo depois da curva, no inicio da subida, não pensou em outra coisa, só correr.


E tinha tudo que era preciso, tamanho, força e muita velocidade. Acelerava vorazmente, sobre o asfalto antigo. Superou a todos, até me encontrar.


Na segunda curva, na inversão que levaria a reta decisiva, abri para a direita, tentando evitar o transito que seria formado pelos cinco a minha frente. Ele vinha mais rápido que todos a sua frente, iniciou a curva do jeito que deu, mas sem preparo, não percebeu minha manobra.


Numa situação diferente, com menos percalços no início da corrida, ele faria a curva junto do pelotão, não desviaria, talvez até diminuísse o ritmo, mas não foi assim. E tentava se recuperar, compensar todo o tempo perdido, numa arrancada só. Sem ter um trajeto na cabeça, correndo alucinadamente, foi puxado pela força centrifuga para a direita. Onde eu estava!


Não sabia de onde tinha vindo. Só senti o tranco no lado esquerdo das minhas costas, e fui direto pro chão. Ralei no joelho e a palma da mão, e o asfalto antigo ainda deixou pequenos pedaços seus em minhas feridas. Levantei a cabeça e pude ver o primeiro pelotão se afastar. E chorei.


Chorei como toda criança chora ao se machucar. Chorei como toda criança chora quando perde. E com seis anos, ainda não sabia, mas senti no peito a dor da frustração.


Toda a preparação que eu e meu pai fizemos tinha sido em vão. Toda à tarde do sábado, anterior a corrida, que me dediquei ao treino, repassei o circuito, decorei os pontos de aceleração tinham ficado naquele asfalto. As refeições especiais que minha mãe havia preparado nos últimos três dias, o café-da-manhã de atleta daquele domingo, e a barrinha energética de antes da prova, agora de nada adiantavam.


Sentando, sangrando no joelho, com a mão ardendo, chorei.


Há poucos minutos, tinha certeza que estaria entre os primeiros colocados. Há 100m dali, na linha de largada, eu sabia que faria uma grande corrida. Havia treinado, me preparado, e tinha feito uma dieta de atleta. Mas depois do tombo, a única coisa que sabia é que queria sair dali.


Mas eu tinha um técnico do meu lado. Um homem que correra o mesmo circuito, do lado de fora dos cavaletes, gritando e me incentivando. Ele estava do meu lado no treino, e também no tombo.


Meu pai entrou na pista, sem perguntar se era proibido. Me pegou no colo, enxugou minhas lágrimas, me deu um beijo na testa e perguntou se estava bem. Não disse nem que sim, nem que não, ainda chorando, pedi pra ele me levar embora.


“Agora não. Termina a corrida, e nós vamos.” Disse isso, e me pôs no chão. “Vai, filho, até o fim. Confio em você”. Voltou para trás do cavalete, e bateu palmas para mim. Passei a mão no rosto, disfarcei as lágrimas e, timidamente, retornei a prova.


Passos tímidos, envergonhado pela queda e pelo choro. Acelerei, pensei nos meus pais, nos últimos dias. Não podia decepcioná-los. E comecei a correr!


As pessoas em volta, pais, parentes e amigos, começaram a gritar, talvez já tivessem gritando desde o início, mas não tinha reparado. Acreditava que gritavam por mim, então corri mais! Forcei o máximo que pude, os 50m finais.


Nem sentia mais a dor no joelho, só o vento no rosto. O friozinho da manhã de outono, se chocava com o calor do corpo. Corria como nunca havia corrido antes. Via a linha de chegada se aproximando, e nela, minha mãe, ajoelhada de braços abertos me esperava.


Ela me abraçou forte, como só uma mãe sabe abraçar. Me confortou. Me alegrou. E protegeu. Até que senti um puxão por baixo dos braços.


Meu pai havia corrido todo percurso, do outro lado dos cavaletes. Incentivando, gritando, e me inspirando. Trombando com outros pais, mães e canteiros. Corria com um sorriso no rosto, sem tirar os olhos de mim. E na linha de chegada, pulou novamente o cavalete, me arrancou dos braços da minha mãe e me pôs no ombro.


Correu comigo de um lado para o outro, mostrando seu orgulho. Transbordado esse orgulho. Senti, naquele momento, o que ele tentou me ensinar todos os dias. Senti o que ainda não podia compreender. E, sacudindo no seu ombro, sorri com ele.


Cheguei em ultimo!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Monstros

- Pai, não consigo dormir!

- Por que, querida? Está se sentindo mal?

- Tô com medo, pai...acho que tem um monstro no meu quarto!

- Que isso, filha?! Monstros não existem!

- Como não, pai? Eu já vi um monte de vezes na TV! Tem um monte de monstro. Tem até alguns que são bonzinhos, mas o do meu quarto, acho que não é.

- Querida, esses monstros da TV são de mentirinha, são só pra divertir. Como esses personagens de contos de fada.

- Mas se existem na TV, como não existem na nossa casa?

- A TV é só uma caixinha que mostra pessoas fantasiadas, ou maquiadas, fingindo serem monstros.

- Mas eu ouvi no meu quarto!

- Mas você viu?

- Não, pai, eu não vi, porque tava muito escuro. Mas eu ouvi um barulho de monstro! No armário e perto da cômoda!

- Filha, você ouviu barulho da madeira dos móveis. Tenho certeza! Monstros não existem...

- Então prova!

- Eu garanto filha!

- Mas, prova?

- Eu nunca vi um monstro. E você, já viu?

- Não.

- Nem eu, nem você, nem ninguém! Porque eles não existem!

- Mas não é porque não vemos uma coisa, que elas não existem, né pai?! A gente não vê micróbio, a gente não vê o ar...

-Nisso você tem razão.

- Então, como você vai me provar que monstros não existem?

- Vamos lá no seu quarto, que vou te mostrar.

- Mas pai, você vai chegar e acender a luz, e todo mundo saber que monstro foge da luz!

- Querida, só posso te mostrar assim. Indo no seu quarto e mostrando. Vou abrir todos os móveis, e te mostrar que só tem suas roupas e brinquedos.

- Pai, eu não vou voltar lá!

- Mas lá é o seu quarto, é lá que você tem que dormir!

- Só volto se você me provar que não existe nenhum monstro lá.

- Mas você não acredita no que estou te falando, como vou fazer?

- Pai, eu acredito em você! Você é meu pai, não pode mentir pra mim! Mas eu quero que você me prove que não existe monstro.

- Pô, filha, agora nem eu sei. Eu sei como provar que alguma coisa existe, mas provar o que não existe...acho que não posso fazer isso.

- Tá vendo, pai? Eu sei que tem monstro no meu quarto! Não quero voltar pra lá!

- Calma querida! Não sei te provar que alguma coisa não existe, mas te provo outras coisas. Vou
te provar que sempre te protegerei. Que do meu lado, você não precisa temer mal algum.

- Mesmo pai?!

- Mesmo! Vamos dormir no seu quarto, e eu vou te abraçar a noite toda. Se você acordar, não
precisa ficar com medo, porque eu estarei ali, com você nos meus braços, te protegendo contra todos!

- Você promete, pai?

- Filha, acho que não sou tão esperto quanto você, mesmo tendo 30 anos a mais. Não sei te provar algumas coisas, mas você confia em mim, não é?

- Confio!

- Então confia, filha! Porque, mesmo não podendo provar que monstros não existem, posso te proteger deles. Pois você sempre pode confiar no seu pai. Pai não pode mentir, não é?

- Não pode, pai!

terça-feira, 7 de junho de 2011

27

Aquela noite, que era só mais uma noite de sexta-feira, se tornou a pior de todas. Tornou-se a noite mais longa. A mais escura. A pior de todas as noites.

Então se tornou sábado. O pior de todos os sábados. O mais solitário. Onde se procura uma fuga. Onde se esquece a dor no peito, com uma pancada na cabeça. Na chuva, no frio, cercado de amigos, ainda sim, solitário. E quando jogado na lama, quando pisado, tem um breve momento de paz. Pois uma dor alivia a outra. Mas não cura.

E o domingo, que por si só é triste, fica ainda mais melancólico. Torna-se insuportável, quando corre para o lado errado. Quando o que deveria te levar para longe, te joga no chão. O que deveria iludir e fechar os olhos, escancara toda a verdade. Tudo dá errado. E assim será, até que esteja acabado.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Cervajas Possíveis V

Esnoba a todos que não entendem teu calor. Pois é o frio que te abraça, que sustenta tua amargura. Não conhecem teu jeito, não aguentam teu sabor.

Porque é mais forte que eles! Porque é única, ruiva. Porque é weizenbock!

terça-feira, 31 de maio de 2011

The morning

When he oppened his eyes, the darkness was all around. Dazend, too tired to move... he fell down. "What's happened? Is that real?". He can't be sure. Confused between dream and hope, he let his mind fly away. But his body still lay down, all tired up.

Suddenly, he was sit with his father, talking about his car. It's an old car, but a good one. His mother appeared with a tray fill with money, and said "take this, son. Buy a new car to youself". He smiled and said "thanks, mom, but I don't need money, I can fly!".

"Wait! This can't be true! I must get up..." slowly, he oppened his eyes. Dizzy, and afraid, worried about his next step. The darkness was fading. But he's weak, and did not fight when the ties covered his head. So, he fell again.

Lost in nowhere, he can't saw anything, but he felt everything. he felt cold. He felt hungry. And he felt that something was wrong. A sound starts inside his head. Constant, annoy, loud. It's a ring. It's the same ring that's bring he back, every day!

Furious, he oppened his eyes once again. Threw the blanket, that was tied him. He got out the bed, goes to the bathroom, and looked at the mirror.

He saw the face of a lifeless man. He saw regret. Look defeated. Look like the soul lives the body by his on.

With a pain in the chest, he goes to the work...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Vislumbre

Tinha tudo a perder. Sentado na mesma mesa que sentava todos os dias. Cercado pelas mesmas pessoas que via todos os dias. Nauseado pela rotina.

Não conseguia mais produzir. Não se importava mais em produzir. Não queria mais. Então passou a ser consumido.

E não se importou quando foi extraído dali. Mas quase nada mudou. Não havia mais rotina, e não havia mais por quê. Não havia por quem. Não havia por onde. Mas isso também o consumiu.

Então fugiu.

Abandonou os móveis. Deu as costas para o concreto, e seguiu pelo asfalto. Até não haver mais asfalto, e foi além.

Fez da terra, da grama e das pedras, o seu caminho. Sentiu-se em um novo lugar. Não sentia mais falta do que havia perdido, nem do que tinha abandonado. Já não sentia mais nada.

Chegou até o limite do caminho. Sentado só, a beira da pedra, observou. Depois de anos, reabriu os olhos. Viu possibilidades, viu liberdade e viu o fim.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Desgovernado

Desgovernado segue o barco em meio a tormenta e a despreocupação
O choque é inevitável, mas a maré de sorte protege a embarcação
Será o acaso que comanda o leme? O tripulante solitário não entende
jogado de um lado ao outro do convés, entrega toda sua sorte ao revés

Desgovernado segue o barco, em meio ao caos e a escuridão
As estrelas apontam a rota, mas as ondas decidem aonde vão
o casco resiste aos impactos, mas a água invade por todos os lados
e o tripulante aguarda descrente, a tragédia anunciada e eminente

E o que lhe mantém no barco, se todos já teriam pulado?
Não teme a tormenta, nem os raios
Ninguém o espera no outro lado.

Tem a consciência do seu fim, mas não há motivos para fugir
Inevitável, ele espera apático
E desgovernado segue o barco...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Homem-minuto

Ecoavam vozes, tambores, palmas e cornetas. Pés batiam forte no chão, faziam toda estrutura tremer. Não dava pra entender o que diziam, parecia ter uma melodia, mas sei que eram pra mim. Todos aqueles ruídos dissonantes e eufóricos, eram pra mim! Pois, aos 42 minutos da segunda etapa, eu havia roubado a bola do meia, num carrinho certeiro. Um golpe perfeito!


Ele vinha, com o queixo erguido, e o número 11 estampado nas costas, certo de que seu destino seria a grande área. Certo de que nada o deteria. Por isso, pouco se importou com um nada habilidoso cabeça-de-área, chegava como um louco a sua frente. Bufando. Com o olhar fixo na bola.


Nesse momento era certo que o meia pensava “otário, vai ser driblado”, assim como meu técnico pensou “burro, vai ser driblado”, da mesma forma que um velho torcedor, espremido na arquibancada lotada daquele tímido estádio, pensou “Filho da puta! Vai ser driblado!”.


O camisa 11 passou o pé direito em cima da bola. Eu, o cabeça-de-área, continuei minha corrida. Ele deu um tapa na bola, para o pé esquerdo, que imediatamente devolveu a bola para o lado direito, aonde eu vinha deslizando, rasgando a grama e tirando a bola de seu controle.


Otário! Já conhecia seu drible, e já sabia onde pegaria a bola. Sem ninguém a minha frente, dominei a bola, e parti em contra-ataque.


Ele não acreditou! Ficou estático, enquanto seus companheiros de time o xingavam. Meu técnico não acreditou! Pulou, vibrou, chutou o banco de reservas e gritava pra mim “Isso, garoto!”. O velho torcedor não acreditou! Abraçou um desconhecido que estava ao seu lado, igualmente eufórico, igualmente suado e gritava “Filha da puta! Gênio, filha da puta! É seleção! É seleção!”.


O relógio então virou, cravou os 42 minutos. Eu não vi, me disseram. Mas foi exatamente nesse segundo que iniciei meu contra-ataque. Meu coração disparou, sentindo o momento. Sentindo a pressão que vinha das arquibancadas. Todo aquele ruído vinha como uma massa compacta, apertando cada músculo do meu corpo. E o carregador de piano, pouco habilidoso, puxou o que poderia ser o ultimo contra-ataque.


Próximo à linha divisória, estiquei a bola para o lateral direito. Uns quatro metros a sua frente. Agora corre, desgraçado! Diminui o ritmo, mas não parei. Abandonei meu posto, de cão de guarda, abandonei os zagueiros que devo proteger e parti junto aos atacantes. Aquela era a minha bola, não iria deixá-la. Não seria mero espectador daquele ataque.


A torcida impulsionava o time. Inspirava o lateral, com seu barulho indecifrável, e o fazia pensar que realmente era um grande jogador. A essa altura, não entendíamos as instruções do técnico, que insistia em gesticular e esbravejar, o pedido dos companheiros, muito menos os gritos das torcidas.


Passou por um marcador, como se não houvesse ninguém em sua frente. Tabelou com o atacante, bem próximo a grande área adversária. A torcida levantou. Já não cantavam mais, não conseguiam. A apreensão impedia a coordenação necessária para isso. Eram só gritos e instruções gaguejadas ou grunhidos apontando a linha de fundo como jogada ideal.


Mas ele parou antes. Acho que não tinha mais pernas. O fato é que não tinha confiança em manter a posse de bola e executar o cruzamento, nos oito metros que faltavam para a linha de fundo.


Eu já estava na meia lua, com braço esticado. Queria aquela bola! Era o meu contra-ataque, queria finalizá-lo!


O lateral levantou a cabeça. A defesa adversária partia para cima dele, como Kamikazes, como eu fizera 26 segundos antes. Eu agitava o braço, posicionado, entrando na área. Ele escolheu seu alvo, e cruzou. A bola percorreu a parábola, deixando um zagueiro para trás, sem nem um toque. Ela buscava o centro-avante, nosso camisa nove, na altura da linha do pênalti, dois metros para a esquerda.


Marcado, ele subiu para o cabeceio. Puxado pela camisa, empurrou o zagueiro para tentar se livrar. Subiu. Com uma carga agarrada ao uniforme, subiu. Lutou contra o impulso de fechar os olhos. Espremidos e pressionados, ainda sim, estavam abertos quando a bola tocou a testa. Rotacionou a cabeça 60°, pegando o goleiro no contra-pé, encobrindo-o. Não havia nada que pudesse pará-la.


A não ser trave...


O banco de reservas parecia ter sido coreografado. Todos estavam de pé, e quando a bola tocou a trave, flexionaram os joelhos, levaram as mãos à cabeça e arregalaram os olhos. Sem emitir um som.


Diferente do meu técnico, que engasgado, só conseguia apontar para a bola.


Diferente do velho torcedor, que sentiu uma fisgada no peito e, assustado, ajoelho-se em silêncio.


E foi nesse momento que o estádio se calou. O silêncio tomou conta do lugar, talvez, por um segundo ou menos. Nenhum barulho, nem palmas, tambor, nem flashes, nem nada. A massa de ar definhou.


E a bola, que girava lentamente seus 32 gomos, do alto do poste, tomou curvilínea, a direção ao chão. Num estante, quebrou o silêncio com o toque no gramado, fugindo da pequena área. E eu sabia, era a minha hora.


Mesmo sem ouvir o som que ele não propagava. Mesmo sem ver o gesto que era feito há mais de vinte metros atrás de mim. Era certo que aquele senhor, a beira do gramado, engasgado, com os dedos trêmulos, em seta, meu técnico, apontava meu destino. “É teu, garoto! O rebote é teu!”.


Corri como pude. Com o peso dos meus quase trinta anos. De duas operações no joelho esquerdo. De uma fascite plantar. Com o peso da desconfiança do torcedor, ao me ver cruzando a linha média do campo. Corri, sabendo das minhas limitações técnicas, e me atirei contra a bola.


Pouco habilidoso, como já dissera ser, empurrei os 32 gomos de volta contra o gol. Não acertei um bonito voleio, não bati colocado. Acertei com um carrinho desastrado, mas do jeito que tinha certeza, que não erraria a bola. E, quicando ela veio, quicando ela voltou.


Exatas quatro batidas contra o solo, antes de cruzar completamente a linha do gol.


Fui tomado. Por todas as vozes do estádio! Todos os 23168 torcedores das arquibancadas. Pelos 10 que estava comigo dentro de campo. E por um senhor de 60 e poucos anos, que a beira do gramado, com os olhos marejados apontava para mim. Agradecia, congratulava e sorria, como poucas vezes vi sorrir antes.


Parecia ter sido arrebatado. Não sentia mais meus passos, apesar de estar correndo em direção ao banco de reservas. Não tinha tato, mesmo com amigos agarrados aos meus ombros. Só pensava no gol. O gol que construí desde o inicio. O cabeça-de-área, pouco habilidoso, de quem a torcida desconfiava com a bola no pé, salvou o time de um ataque perigoso, e iniciou e terminou a jogada do gol que manteve o time na terceira divisão do campeonato nacional. O segundo, e o mais importante gol da sua carreira. O gol que só o velho torcedor, que nesse momento enfartava, e com a visão turva, não viu.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Invisível

São 15:22, de terça-feira. É meu oitavo mês de trabalho. Das 42 pessoas que trabalham no meu setor, apenas quatro sabem meu nome. Nem por isso conversam comigo.

Hoje cheguei atrasado. Pela terceira vez nesses oito meses. Mas pela primeira vez foi sem motivo. Alias, motivo eu tinha, era um teste. Cheguei 2 horas atrasado, entrei normalmente pela porta, encarando a todos, em busca de um cumprimento ou mesmo uma repreensão. Nada. Não notaram minha presença. Parecia invisível.

Nem mesmo meu chefe, um dos 38 que não sabem meu nome, se abalou com minha ausência. Fico pensando, qual a minha importância, aqui? E se eu deixar de fazer meu trabalho, será que vão reparar? Acho que devo realizar mais testes!

Nunca fui popular. Nem mesmo muito querido. Acho que sou o único filho único que não foi mimado pelos pais. Na escola não sentava no fundo, nem na frente. Por muitas vezes passava o recreio olhando as outras crianças brincarem. Mas lá, pelo menos, sabiam meu nome. Graças a Deus existia a chamada!

Os anos passaram, e as coisas não mudaram. Nenhum amigo, pouquíssimos colegas. Morar sozinho foi uma escolha mais do que óbvia.

Sei que existo! Faço compras, pago contas, o porteiro do meu prédio fala comigo. Às vezes até alguns vizinhos me cumprimentam! E por que 42 pessoas, quem me vêem todo dia, não? E Deus, será que Ele me vê? Será que me escuta?

Sempre ouvi que Deus tem um plano para cada um de nós. O meu deve ser algum tipo de plano secreto. Tipo "vais viver como um ninja, sem ser notado onde quer que esteja". Minha missão é não interferir no resto do mundo. Nascer, crescer e morrer sem que nada a minha volta seja alterado.

Mais um dia preenchendo planilhas. Conferindo custos, corrigindo erros e reportando-os. Um relatório que só eu faço, e tenho quase certeza de que só eu leio. Em oito meses de trabalho, as outras três pessoas que faziam o mesmo que eu, foram demitidas. Uma a uma. E por alguma razão, eu fiquei. Mesmo tendo pouca experiência. Talvez tenham esquecido de me demitir também. Mas os dados continuavam chegando, e eu continuava executando meu trabalho, mesmo sem supervisão. Mesmo sem metas, prazos ou cobranças.

Já passa da uma da manhã, e não consigo dormir. Tenho que fazer alguma coisa! 24 anos de vida ignorada. Isso tem que mudar! Não consigo para de pensar nesse absurdo que é minha vida. Eu vejo na TV filmes, novelas, séries, sempre mostram pessoas convivendo, conversando, socializando. Por mais estranha que seja a pessoa, ela nunca está só. Exceto o Tom Hanks, em Náufrago. Mas ele teria se matado, se fosse competente. Além disso, achei aquela amizade com a bola de vôlei uma babaquice.

Quarta-feira amanheceu cinza. Como minha vida. Segui no horário hoje, afinal, não tinha nada melhor para fazer. Entrei no prédio, o segurança me cumprimentou, o ascensorista não. Atravessei o corredor do meu andar procurando um bom dia, mas entre divisórias e rodinhas de bebedores de café, nem um "ar de oi" eu vi. Sentei em minha mesa, uma das poucas que não faz fronteira com nenhuma outra, e segui minha rotina.

Lá pelas 10:00 a secretária trouxe uma pilha de documentos pra mim. "As planilhas da ultima semana, Nelson." Não me cumprimentou, não perguntou como eu estava nem nada, mas pelo menos sabia meu nome. Pelo menos falou comigo. Sem jeito, agradeci com um meio sorriso e um aceno de cabeça. Não sei como falar com ela, fico meio tenso, na expectativa de ter uma conversa, e travo. Mas quando a vejo caminhando em direção a minha mesa, já crio todo nosso diálogo na cabeça. Ela me pergunta como foi minha noite, se vi algo interessante na TV, se assisti tal filme, e eu respondo tudo com naturalidade. Mas só na minha cabeça.

Agora o dia passará lento. Uma pilha de documentos para revisar, milhões de números para corrigir e a incerteza de mais um contato. A secretária só teria que falar comigo daqui uns dois dias, a simpática senhora do café às vezes esquece de me servir, meu chefe não iria me dar esporro, ou conselho, nem parabéns pelo ótimo trabalho. Há um mês, tomei coragem e fui falar com ele. Levantei receoso, com meus relatórios de erro na mão, e segui até sua mesa:

- O que é isso, rapaz? - ele realmente não sabia meu nome.

- São os relatórios de erro.

- Pára de gastar papel! Manda por email.

Fui assim que perdi a coragem e a esperança de falar com ele. Então passei a evitar sair da minha mesa.

Completei um ano na empresa. E, com a agonia me consumindo, passei a externá-la. Fui deixando a gravata de lado, logo depois a calça social, a camisa e por fim o sapato. Passei a trabalhar de jeans velho, camiseta e tênis. Quase sempre os mesmos, bem surrados. Pra falar a verdade, mal lavados e manchados. Não me preocupava mais com a minha aparência, afinal de contas, ninguém me via, mesmo.

O cabelo cresceu disforme. E não via um pente há tempos. Minha barba era rala, mas presente, uns tufos nas costeletas, outro grande no queixo e um bigode de mexicano pra completar o rosto. Eu me via estranho, mas não ligava, acho que comecei a me enxergar da mesma forma que as outras pessoas. Eu era quase que uma parte do cenário, mesmo destoando de tudo. E o pior é que ninguém estranhava, ninguém comentava. Aquele cara de camisa engomada, pra dentro da calça, e gravata, era o mesmo que o mulambo de bamba velho. As pessoas que me cumprimentavam antes, continuaram a me cumprimentar, as que me ignoravam, seguiram me ignorando.

Minha vida sem graça está cada vez mais ridícula. Sem amigos, ou namorada. Pais que quase não vejo ou falo, nem gosto mesmo deles. Vizinhos que são quase que fantasmas e um trabalho, onde o fantasma sou eu.

"Bom dia, Sr Nelson! Aceita um café?". Hoje a D. Marta lembrou de me servir. Eu só a fitei e, aceitei levemente. Estava exausto. Cansado de mais de vida, de ser ignorado, de não ter ninguém! Terminei mais um relatório. Imprimi todas as folhas. Catei aquele bolo de papel, e fui na mesa do meu chefe.

- O que é isso, rapaz?

- São os relatórios de erro.

- Pára de gastar papel! Manda por email.

Hoje não...

- Mandar por email? Tu vai ler essa porra?

- Vai logo, rapaz, manda por email.

- Rapaz é o caralho! Qual o meu nome? Fala! - Surtei.

- Que isso? Calma, garoto!

- Tu vai ler essa merda toda, porque eu vou enfiá-la no teu rabo! - Perdi totalmente o controle. Rasguei minha camisa e atirei em cima do meu chefe, juntamente com o relatório.

Fiquei totalmente nú, derrubei divisórias e pulava de mesa em mesa chutando tudo que via pela frente!

- Bando de filha da puta! Tão me vendo agora? Tão me vendo desgraçados?

Derrubei mesas, computadores, telefones. Dessa vez todos no andar olharam pra mim. Finalmente me viram, me ouviram. Olhavam estarrecidos, mas ninguém falou comigo. Só gritavam pelos seguranças, pediam ajuda, socorro. Comentava uns com os outros, desesperados "ele enlouqueceu de vez!". Destruí tudo que vi. Quebrei o que pude, até os seguranças me conterem, então desmaiei.

Três meses internado numa clínica de tratamento psiquiátrico. Sem visitas. Tomando calmantes e outros medicamentos que entortam meus pensamentos. Três meses sendo obrigado a ver um psiquiatra. Três meses com alguém sendo obrigado a me ver. Não sei mais o que real. Antes de vir para cá, andava entre as pessoas torcendo para que uma delas falasse comigo. Hoje os enfermeiros me cumprimentam, me dão os remédios. Alguns internos falam comigo, os que não falam são porque faço questão de manter distância. Todos loucos.

Mas o melhor é o doutor, meu psiquiatra. Às vezes sento e fico encarando ele. Não digo nada, mas sei que ele me vê. Sei que ele está prestando atenção em mim. No começo foi difícil. Nunca tive tanta atenção de uma pessoa só. Era estranho, prestava atenção, mas não se aproximava. Eu não entendia essa relação, até que passei a questioná-lo.

- Olha pra mim, o que você está vendo? Tem algo de errado? O que você quer? - Ele sorriu e disse que era meu psiquiatra e o que queria era minha confiança, nele e em mim mesmo.

Sempre achei que loucos eram os outros, que passavam os dias ignorando uma pessoa que está todo dia no mesmo ambiente que eles. O doutor tentou me convencer que eu, mesmo calado e distante dos outros, projetava uma imagem hostil, possivelmente agressiva. Disse que a forma que olhava para as pessoas procurando atenção, constrangia e, às vezes as assustava. Elas, na verdade, tinham medo de mim, por isso me evitavam. Ele nunca disse, mas é claro que ele também me achava maluco.

Depois disso, comecei a entender. Tinha passado 24 anos seguindo um comportamento normal, e a sociedade me ignorou. Botei o dedo na cara dela e ela me excluiu. Agora estou domado novamente (a base de pílulas). Em breve vão me devolver pra minha vida invisível. Realmente, esse era o plano de Deus. Entendi sua piada, mas não volto nem fudendo!

Deixei os remédios e abracei a loucura dos outros. Tirava a roupa, e fingia que era invisível. Quando os enfermeiros me continham, perguntava “como me pegaram? Vocês não podem me ver!”. A medicação mudava, eu fingia que tomava e me comportava. Umas semanas depois, fazia tudo de novo.

O doutor ficava puto! Mas era porque ele não entendia as piadas, nem a minha, nem a de Deus. Nós seguimos nossa rotina. Eu tentava disfarçar meus “surtos”, pois gostava dos nossos encontros. Mas não resistia, e sempre repetia “olha pra mim, doutor, o que você está vendo?”. Minha piada. Meu teste Rorschach.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Cervejas Possíveis IV

Filha de monges, cheia de segredos. Não se revela no primeiro olhar.

Me atrai só com o nome. Seduz com seu perfume, exalando pecado. Encanta a cada toque, e me arrebata no fim do encontro.

Sedutora. Pecadora. Trapista.