quarta-feira, 27 de junho de 2012

O dia da marmota

Cubro a cabeça com a coberta, mas não adianta. Eu sei que o despertador tocará em sete minutos. O rádio gritará “Bom dia!” com alegria contagiante de seu locutor. Avisará sobre o trânsito ruim no centro, sobre o acidente na Avenida Brasil, e eu já sei sobre tudo isso.

Agora eu tenho menos de cinco minutos para decidir se ouvirei sobre isso ou não. Desligo o rádio antes do despertador, ou não? Escuto a mesma voz que escuto todos os dias, repetir as mesmas coisas que repete todos os dias, ou não?

7:00

- Bom dia pra você, amigo ouvinte! Mais um dia com vocês, e vamos ver como está o trânsito hoje? É... quem madrugou parece não ter dado muita sorte. Muito congestionamento nas ruas do centro, e um acidente deu um nó no trânsito da Av. Brasil! Tudo parado no acesso a Linha Amarela!

Tudo como ontem. Lá fora uma leve garoa, a temperatura é de 20°C. E eu, sentado na cama, olhava o armário tentando decidir se vestiria uma camisa azul, ou usaria minha única peça preta. Descontente. Mas o que fazer, se não sair? Peguei uma azul mesmo. Como ontem. Como anteontem.

Como toda manhã, tomei um banho quente. Como toda manhã, me queimei na água escaldante que cai do chuveiro, 10 segundos depois do aquecedor ligar. Na pia, travei minha batalha diária com o tubo de pasta de dente.

Esquentei a água para o café, e fui até a porta encarar a verdade. Esse era o momento mais duro do meu dia. Não sei quando começou, mas reparei em meados de fevereiro. Desde então, nem mais um risco no calendário. Parei no dia 11!

Abri a porta com apreensão. Fechei os olhos, abaixei e peguei o jornal. Torci por uma novidade. Uma notícia qualquer que me mostrasse um novo dia. Lentamente abri, e olhei as manchetes: um político acusa seu opositor, um time ganhou, um artista faz merda, outro brilha na novela, abre um novo concurso público, um filme é recorde de bilheteria, os EUA interferem na política de outro país.

Eu já sabia...nada mudou! Nada muda há dias. Mas dentro de mim, uma tola esperança cisma em contestar o óbvio: a marmota nunca deixou a toca. Estou preso num dia que se repete incessantemente.

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