Por entre as tamarineiras, o Sol brilhava, naquela manhã de domingo. Era outono, e a temperatura era amena. Sentia um friozinho arrepiando de leve a pele, como aquele que se sente logo ao entrar numa agência bancária em dias de verão.
Sentia-me bem. Confiante. Tinha toda minha família na torcida. Tinha uniforme, número no peito, tênis de corrida e mais de 50 adversários a superar.
O circuito era simples, oval. Iniciava em pista plana, curva para esquerda, depois um ligeiro aclive, reta, curva para direita, pequeno declive e a linha de chegada em pista plana. Cavaletes isolavam a rua. Placas indicavam o percurso.
Já tinha toda minha estratégia de corrida. Meu treinador, meu pai, havia me instruído bem. Posicionei-me na terceira fila. A frente de corredores de pouca aceleração, para não sofrer pressão na largada, assim teria espaço, podendo acumular energia para a subida, mantendo o ritmo.
Dada a largada!
E tudo correu como planejado. As primeiras filas saíram desesperadas. Os que não foram tão rápidos acabaram sendo atropelados por outros corredores. Consegui evitar esses. Atrás de mim, adversários mais pesados ou fora de forma, não eram ameaça. Segui no meu ritmo, passada após passada, naquele asfalto antigo.
Na primeira curva, as coisas começavam a se decidir. A virada em 180° afunilou a pista, aproximou primeiro e segundo grupo, reduziu o da prova ritmo momentaneamente. Mas o meu não. Abri a curva e fugi do tumulto.
A essa altura, quando iniciou a subida, eram oito a minha frente. Uns forçavam as articulações na parte mais complicada do circuito. Os desesperados já mostravam os primeiros sinais de cansaço. E eu seguia meu ritmo, conforme a estratégia do meu treinador.
Seguia firme, em minha trajetória. Vencendo o pequeno aclive, ignorando as falhas do asfalto antigo. Mantendo o ritmo. E naqueles nove metros, três adversários foram deixados para trás, ultrapassados sem problemas.
Então veio a segunda inversão. E com ela um fato que não foi planejado. Novamente os corredores afunilaram o percurso, e na minha tentativa de manter-me livre, vi minha vitória escapar. Do pelotão mais distante, vinha como um louco, como uma locomotiva desgovernada, o corredor que se fosse treinado pelo meu pai, seria o campeão.
Ele havia largado das ultimas posições. Não soube escolher o lugar, foi atrapalhado por corredores mais lentos logo no início. Na primeira curva pegou transito novamente, não tinha estratégia nenhuma. Então, quando viu a pista livre, logo depois da curva, no inicio da subida, não pensou em outra coisa, só correr.
E tinha tudo que era preciso, tamanho, força e muita velocidade. Acelerava vorazmente, sobre o asfalto antigo. Superou a todos, até me encontrar.
Na segunda curva, na inversão que levaria a reta decisiva, abri para a direita, tentando evitar o transito que seria formado pelos cinco a minha frente. Ele vinha mais rápido que todos a sua frente, iniciou a curva do jeito que deu, mas sem preparo, não percebeu minha manobra.
Numa situação diferente, com menos percalços no início da corrida, ele faria a curva junto do pelotão, não desviaria, talvez até diminuísse o ritmo, mas não foi assim. E tentava se recuperar, compensar todo o tempo perdido, numa arrancada só. Sem ter um trajeto na cabeça, correndo alucinadamente, foi puxado pela força centrifuga para a direita. Onde eu estava!
Não sabia de onde tinha vindo. Só senti o tranco no lado esquerdo das minhas costas, e fui direto pro chão. Ralei no joelho e a palma da mão, e o asfalto antigo ainda deixou pequenos pedaços seus em minhas feridas. Levantei a cabeça e pude ver o primeiro pelotão se afastar. E chorei.
Chorei como toda criança chora ao se machucar. Chorei como toda criança chora quando perde. E com seis anos, ainda não sabia, mas senti no peito a dor da frustração.
Toda a preparação que eu e meu pai fizemos tinha sido em vão. Toda à tarde do sábado, anterior a corrida, que me dediquei ao treino, repassei o circuito, decorei os pontos de aceleração tinham ficado naquele asfalto. As refeições especiais que minha mãe havia preparado nos últimos três dias, o café-da-manhã de atleta daquele domingo, e a barrinha energética de antes da prova, agora de nada adiantavam.
Sentando, sangrando no joelho, com a mão ardendo, chorei.
Há poucos minutos, tinha certeza que estaria entre os primeiros colocados. Há 100m dali, na linha de largada, eu sabia que faria uma grande corrida. Havia treinado, me preparado, e tinha feito uma dieta de atleta. Mas depois do tombo, a única coisa que sabia é que queria sair dali.
Mas eu tinha um técnico do meu lado. Um homem que correra o mesmo circuito, do lado de fora dos cavaletes, gritando e me incentivando. Ele estava do meu lado no treino, e também no tombo.
Meu pai entrou na pista, sem perguntar se era proibido. Me pegou no colo, enxugou minhas lágrimas, me deu um beijo na testa e perguntou se estava bem. Não disse nem que sim, nem que não, ainda chorando, pedi pra ele me levar embora.
“Agora não. Termina a corrida, e nós vamos.” Disse isso, e me pôs no chão. “Vai, filho, até o fim. Confio em você”. Voltou para trás do cavalete, e bateu palmas para mim. Passei a mão no rosto, disfarcei as lágrimas e, timidamente, retornei a prova.
Passos tímidos, envergonhado pela queda e pelo choro. Acelerei, pensei nos meus pais, nos últimos dias. Não podia decepcioná-los. E comecei a correr!
As pessoas em volta, pais, parentes e amigos, começaram a gritar, talvez já tivessem gritando desde o início, mas não tinha reparado. Acreditava que gritavam por mim, então corri mais! Forcei o máximo que pude, os 50m finais.
Nem sentia mais a dor no joelho, só o vento no rosto. O friozinho da manhã de outono, se chocava com o calor do corpo. Corria como nunca havia corrido antes. Via a linha de chegada se aproximando, e nela, minha mãe, ajoelhada de braços abertos me esperava.
Ela me abraçou forte, como só uma mãe sabe abraçar. Me confortou. Me alegrou. E protegeu. Até que senti um puxão por baixo dos braços.
Meu pai havia corrido todo percurso, do outro lado dos cavaletes. Incentivando, gritando, e me inspirando. Trombando com outros pais, mães e canteiros. Corria com um sorriso no rosto, sem tirar os olhos de mim. E na linha de chegada, pulou novamente o cavalete, me arrancou dos braços da minha mãe e me pôs no ombro.
Correu comigo de um lado para o outro, mostrando seu orgulho. Transbordado esse orgulho. Senti, naquele momento, o que ele tentou me ensinar todos os dias. Senti o que ainda não podia compreender. E, sacudindo no seu ombro, sorri com ele.
Cheguei em ultimo!