segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Amores de Carnaval II

Ela estava tão linda. Sozinha na noite, com sua saia vermelha e o corpete negro. Linda, mas sozinha. Seu olhar buscava o Pierrô, mas se perdia pela festa. Encontrava O sorriso das crianças na folia, as mulheres de pouca roupa, porém mascaradas e os ritmistas, que encantavam o povo com baquetas e peles.

Sentiu-se fora da festa. Seu homem parecia ter ido buscar um banheiro no inferno. Ao seu lado estavam os amigos babacas de Pierrô. Aqueles que sempre a criticam, que a detestavam, mas que ele não abandonava.

A noite sempre a seduziu. O carnaval sempre a encantou. Mas ela estava ali, sozinha, a mercê de um Pierrô ausente. Mas Colombina nunca foi dependente, deixou a calçada, e foi sambar sozinha no meio do bloco!

Linda como sempre, agora brilhava como nunca. Dançava, sorria e encantava. Era a dona do bloco! Seu rebolado seguia o som dos tamborins. E sua beleza era exaltada pelo puxador do samba, “requebra, deusa”!

Dos céus vinham serpentinas multicoloridas, cruzando em todas as direções. Uma chuva de confetes caia leve. E a sua frente surgiu um coração.

- Te encontrei, princesa!

- Arlequim?!

- Princesa do carnaval, tem todo bloco a seus pés. Todo ano...

- Bobo!

- Mas só seu, e não da corte, minha pombinha. Pega meu coração e vem comigo.

- Não posso, você sabe.

- Só sei que é a Carnaval, e nós temos a noite inteira pela frente. Vem comigo que eu vou te dar a melhor festa da sua vida.

- Já tive momentos ótimos contigo, mas meu carnaval com o Pierrô é sempre melhor!

- Você não sabe o que está perdendo.

-Sei sim. É ótimo, mas tenho melhor. Deixa eu ir, beijo!

Colombina circulou o Arlequim, lançando um beijo em sua nuca. Despediu-se com um sorriso. Saiu sambando por, exibindo sua graça. Com seu rebolado vivaz e elegante, deixando uma trilha de desejo a cada passo.

Voltou para encontrar com Pierrô. Leve e contente. Sua graça tomava conta do bloco, e os olhares excitavam seu sorriso. Gostava de ser admirada, de ser o centro das atenções. E caminhava com ritmo, transbordando sedução.

Quebrada por um puxão no braço.

- Porra, onde você tava?

- Aqui do lado. Me solta!

- Mas saiu e não falou com ninguém!?

- É, saí sim! Você diz que vai mijar e demora um século pra voltar, e quer que eu perca o bloco inteiro te esperando? Além disso, não devo satisfação aos babacas dos teus amigos.

- Não aguenta ficar parada, né? Tem que se exibir!

- Deixa de ser neurótico!

- Tu encontrou com aquele Arlequim filha da puta, né?!

- Encontrei sim, por quê?

- Tu não muda, vagabunda!

- Nem você, seu maluco! Mania de perdedor!

- Chega! Vamos pra casa!

- Vai sozinho, não vou perder meu carnaval por causa das suas neuroses!

- Volta aqui! Volta... meu amor!

E Colombina nem olhou pra trás. Não tinha por quê. Gostava de festa e felicidade, e sabia onde encontra-la. Voltou para o meio do bloco, para perto da bateria. Para o seu lugar de destaque! Voltou a sambar, e encantar. Não demorou para que seu admirador a reencontrasse.

- Sabia que você voltaria, pombinha!

- Cala a boca e me beija!

E beijou. Era o que Arlequim sabia fazer, e Colombina adorava! A liberava, ardia seu peito.

O beijo se estendeu por versos, estrofes e refrãos. Columbina tinha tudo que queria: festa, paixão e atenção. Pegou o coração de Arlequim, prendeu em sua meia-calça e curtiu sua noite.

Dançou por horas. Matou a sede em sua garganta com cerveja e, a de seu corpo com Arlequim. E seguiu assim até o ultimo batuque. Quando o bloco parou, a festa definhou e sua majestade também. Não havia mais motivo para estar naquele lugar, pois não tinha mais pra quem brilhar.

Devolveu o coração de Arlequim. Deu-lhe o ultimo beijo, e se despediu dizendo “nos vemos por aí”.

Caminhou solitária para casa. Feliz pela noite, pelas conquistas. A madrugada lhe brindava com uma brisa, que resfriava seu corpo, depois de toda excitação do bloco. Pegou sua bolsa e conferiu o celular. 32 ligações perdidas, todas de Pierrô. Ignorou todas e mudou seu rumo, foi para casa de uma amiga.

A manhã seguinte raiou preguiçosa e meio vazia. Colombina repensou sua noite, desanimou do Carnaval. Decidiu ficar em casa, assistir a festa dos outros pela TV. Mas sua amiga insistiu e a convenceu que não há Carnaval sem Colombina.

Saiu. Reencontrou com amigos e amigas. Conquistou tantos outros. Não resistiu e fez o que mais gosta de fazer, brincou e dançou, seduziu e até se divertiu! Afinal, não há Carnaval sem Colombina, e não há Colombina sem Carnaval. A terça-feira passou tranquila, como deveria, mas a noite surgiu o vazio.

Ela voltou para casa e não encontrou seu amado. Pensou ter estragado tudo dessa vez. Pensou que não teria volta. Pegou o telefone, mas desistiu, faltou coragem. Abraçou o travesseiro e dormiu com o lamento.

“Por que eu sou tão idiota?”

A madrugada passou lenta e o sono intranquilo. Interrompido por ruídos do vento na janela, os sons das estripulias de foliões na rua e sonhos perturbadores. Nas primeiras horas da Quarta-feira de Cinzas, a agonia se transformou em ansiedade ao toque de seu telefone.

- Oi, sou eu... desculpa, fui um babaca.

- Foi sim. Volta pra casa.

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