Lembrei do dia em que andei de bicicleta, sem rodinha, pela primeira vez. Meu pai empurrando pelo banco, e eu pedalando até cair.
Aquela bicicleta era tão pequena, tão baixa, que nem entendo como as quedas de cima dela, machucavam tanto meu joelho. Foi naquele dia, com meus seis anos, na pracinha perto de casa, que começaram a serem marcadas as cicatrizes que carrego até hoje.
Dizem que quando você está morrendo, passa o filme da sua vida na cabeça. No meu caso não foi bem assim. Enquanto eu estava caído no ponto de ônibus, com dois tiros no peito, o que passava na minha cabeça era aquele curta-metragem: o dia em que eu andei de bicicleta sem rodinha, pela primeira vez.
Ouvia meu pai “Pedala, filho, pedala!”, e eu pisava forte nos pedais daquela minúscula Caloi. O problema é que eu ainda não sabia controlar o guidão. Parecia ter vida própria, virava demais e me derrubava. Meu pai, então, me levantava, perguntava se eu estava bem, e me fazia tentar de novo.
Sentia frio e sede, mas não sabia se estava acordado ou dormindo. Havia vozes e sirenes. Sei que vi um paramédico. E sei que ele estava falando comigo, mas eu não entendia. Só conseguia ouvir o que estava dentro da minha cabeça. Meu pai falando “pedala, filho”.
Subi de novo, meu pai começou a me empurrar. Não conseguiram conter o sangramento. Fui colocado na maca. “Vai, filho, pedala!”, pedalei forte de novo. Disparada, saiu a ambulância. Meu pai soltou o banco. Fiz como ele mandou, segurei firme o guidão, olhando pra frente, controlando cada vibração.
Sem pulso, sem respiração. Seguia firme, pedalando forte, sem bater nos bancos, nem nos canteiros. Já não havia mais som. Nem frio, nem sede, nem nada.
Meu pai gritava “Vai, filho! Não pára!”. E não parei! Consegui, senti a brisa no rosto. Senti o orgulho do meu pai. Senti a conquista. E segui firme, pedalando até o fim.