sexta-feira, 19 de novembro de 2010

No último momento

Lembrei do dia em que andei de bicicleta, sem rodinha, pela primeira vez. Meu pai empurrando pelo banco, e eu pedalando até cair.

Aquela bicicleta era tão pequena, tão baixa, que nem entendo como as quedas de cima dela, machucavam tanto meu joelho. Foi naquele dia, com meus seis anos, na pracinha perto de casa, que começaram a serem marcadas as cicatrizes que carrego até hoje.

Dizem que quando você está morrendo, passa o filme da sua vida na cabeça. No meu caso não foi bem assim. Enquanto eu estava caído no ponto de ônibus, com dois tiros no peito, o que passava na minha cabeça era aquele curta-metragem: o dia em que eu andei de bicicleta sem rodinha, pela primeira vez.

Ouvia meu pai “Pedala, filho, pedala!”, e eu pisava forte nos pedais daquela minúscula Caloi. O problema é que eu ainda não sabia controlar o guidão. Parecia ter vida própria, virava demais e me derrubava. Meu pai, então, me levantava, perguntava se eu estava bem, e me fazia tentar de novo.

Sentia frio e sede, mas não sabia se estava acordado ou dormindo. Havia vozes e sirenes. Sei que vi um paramédico. E sei que ele estava falando comigo, mas eu não entendia. Só conseguia ouvir o que estava dentro da minha cabeça. Meu pai falando “pedala, filho”.

Subi de novo, meu pai começou a me empurrar. Não conseguiram conter o sangramento. Fui colocado na maca. “Vai, filho, pedala!”, pedalei forte de novo. Disparada, saiu a ambulância. Meu pai soltou o banco. Fiz como ele mandou, segurei firme o guidão, olhando pra frente, controlando cada vibração.

Sem pulso, sem respiração. Seguia firme, pedalando forte, sem bater nos bancos, nem nos canteiros. Já não havia mais som. Nem frio, nem sede, nem nada.

Meu pai gritava “Vai, filho! Não pára!”. E não parei! Consegui, senti a brisa no rosto. Senti o orgulho do meu pai. Senti a conquista. E segui firme, pedalando até o fim.

No último momento

Lembrei do dia em que andei de bicicleta, sem rodinha, pela primeira vez. Meu pai empurrando pelo banco, e eu pedalando até cair.

Aquela bicicleta era tão pequena, tão baixa, que nem entendo como as quedas de cima dela, machucavam tanto meu joelho. Foi naquele dia, com meus seis anos, na pracinha perto de casa, que começaram a serem marcadas as cicatrizes que carrego até hoje.

Dizem que quando você está morrendo, passa o filme da sua vida na cabeça. No meu caso não foi bem assim. Enquanto eu estava caído no ponto de ônibus, com dois tiros no peito, o que passava na minha cabeça era aquele curta-metragem: o dia em que eu andei de bicicleta sem rodinha, pela primeira vez.

Ouvia meu pai “Pedala, filho, pedala!”, e eu pisava forte nos pedais daquela minúscula Caloi. O problema é que eu ainda não sabia controlar o guidão. Parecia ter vida própria, virava demais e me derrubava. Meu pai, então, me levantava, perguntava se eu estava bem, e me fazia tentar de novo.

Sentia frio e sede, mas não sabia se estava acordado ou dormindo. Havia vozes e sirenes. Sei que vi um paramédico. E sei que ele estava falando comigo, mas eu não entendia. Só conseguia ouvir o que estava dentro da minha cabeça. Meu pai falando “pedala, filho”.

Subi de novo, meu pai começou a me empurrar. Não conseguiram conter o sangramento. Fui colocado na maca. “Vai, filho, pedala!”, pedalei forte de novo. Disparada, saiu a ambulância. Meu pai soltou o banco. Fiz como ele mandou, segurei firme o guidão, olhando pra frente, controlando cada vibração.

Sem pulso, sem respiração. Seguia firme, pedalando forte, sem bater nos bancos, nem nos canteiros. Já não havia mais som. Nem frio, nem sede, nem nada.

Meu pai gritava “Vai, filho! Não pára!”. E não parei! Consegui, senti a brisa no rosto. Senti o orgulho do meu pai. Senti a conquista. E segui firme, pedalando até o fim.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Desconfie de todos

Desconfie de quem não se apaixona por uma música.

Desconfie de quem aceita mudanças facilmente.

Desconfie de quem se diz satisfeito.

Desconfie de quem trabalhou a vida inteira no mesmo lugar.

Desconfie de quem não se envolve com uma disputa.

Desconfie de quem não torce cegamente por algum time.

Desconfie de quem torce cegamente por um time.

Desconfie de quem diz que faz o bem para outros.

Desconfie de quem pede para ser seguido.

Desconfie de quem gosta do que todos gostam.

Desconfie de quem não se arrepende quando acorda.

Desconfie de quem se arrepende.

Desconfie de quem não tenta.

Desconfie de quem não quer.

Desconfie de quem não faz pelo momento.

Desconfie de quem age sem pensar.

Desconfie de quem planeja a vida.

Desconfie de quem não luta, quando sabe que vai perder.

Desconfie de quem joga para empatar.

Desconfie de quem não faz estupidez.

Desconfie de quem só faz graça.

Desconfie de quem leva tudo a sério.

Desconfie de quem foge.

Desconfie de quem quer ser mártir.

Desconfie de todos a sua volta.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A ressaca

Abre os olhos, tenta reconhecer o próprio quarto. Se arrepende e fecha os olhos. Percebe estar despertando, mas quando abre os olhos de novo, não tem certeza. Sente o gosto de derrota no fim da língua. Arrepende-se mais uma vez.

A cabeça pesa uma tonelada, o corpo dói, e a lembrança da noite anterior dói mais ainda. Dançou, falou, gastou e, principalmente, bebeu. Dançou escroto de mais, falou merda de mais, gastou o cheque especial e bebeu todas as merdas do bar.

Com raiva de si, levantou e foi até o banheiro. Seu intestino responde aos maus tratos. O suor toma conta de seu corpo, então se joga no chuveiro. Senta-se embaixo d'água, tentando relembrar a noite anterior, perguntando-se "por quê?".

A pressão cai. O gosto de derrota vira ânsia. E, ainda no banho, expurga toda merda entrou no seu corpo na noite anterior. Sente agonia, raiva, tristeza e principalmente arrependimento. A cabeça dói mais, o estomago dói mais e, quase sufoca. Senta de novo, limpa a bílis do chão e do corpo. Promete nunca mais perder o controle outra vez.

Coca-cola sem gás, epocler e alka-seltzer. Ficou a sensação de vazio, no estômago e na cabeça. A dor no corpo continua, mas surge também uma certa esperança de que vai ficar tudo bem. Começa a repensar a noite, que tinha sido muito boa! Começa a ter a idéia idiota de que tinha se divertido pra caralho. Valeu a pena.

O telefone toca, a cabeça dói, levemente. Amigos convidam pra mais uma "noite alucinante". Ainda não sabe, porque não quer saber, mas é certo, amanhã vai morrer de novo!