Ecoavam vozes, tambores, palmas e cornetas. Pés batiam forte no chão, faziam toda estrutura tremer. Não dava pra entender o que diziam, parecia ter uma melodia, mas sei que eram pra mim. Todos aqueles ruídos dissonantes e eufóricos, eram pra mim! Pois, aos 42 minutos da segunda etapa, eu havia roubado a bola do meia, num carrinho certeiro. Um golpe perfeito!
Ele vinha, com o queixo erguido, e o número 11 estampado nas costas, certo de que seu destino seria a grande área. Certo de que nada o deteria. Por isso, pouco se importou com um nada habilidoso cabeça-de-área, chegava como um louco a sua frente. Bufando. Com o olhar fixo na bola.
Nesse momento era certo que o meia pensava “otário, vai ser driblado”, assim como meu técnico pensou “burro, vai ser driblado”, da mesma forma que um velho torcedor, espremido na arquibancada lotada daquele tímido estádio, pensou “Filho da puta! Vai ser driblado!”.
O camisa 11 passou o pé direito em cima da bola. Eu, o cabeça-de-área, continuei minha corrida. Ele deu um tapa na bola, para o pé esquerdo, que imediatamente devolveu a bola para o lado direito, aonde eu vinha deslizando, rasgando a grama e tirando a bola de seu controle.
Otário! Já conhecia seu drible, e já sabia onde pegaria a bola. Sem ninguém a minha frente, dominei a bola, e parti em contra-ataque.
Ele não acreditou! Ficou estático, enquanto seus companheiros de time o xingavam. Meu técnico não acreditou! Pulou, vibrou, chutou o banco de reservas e gritava pra mim “Isso, garoto!”. O velho torcedor não acreditou! Abraçou um desconhecido que estava ao seu lado, igualmente eufórico, igualmente suado e gritava “Filha da puta! Gênio, filha da puta! É seleção! É seleção!”.
O relógio então virou, cravou os 42 minutos. Eu não vi, me disseram. Mas foi exatamente nesse segundo que iniciei meu contra-ataque. Meu coração disparou, sentindo o momento. Sentindo a pressão que vinha das arquibancadas. Todo aquele ruído vinha como uma massa compacta, apertando cada músculo do meu corpo. E o carregador de piano, pouco habilidoso, puxou o que poderia ser o ultimo contra-ataque.
Próximo à linha divisória, estiquei a bola para o lateral direito. Uns quatro metros a sua frente. Agora corre, desgraçado! Diminui o ritmo, mas não parei. Abandonei meu posto, de cão de guarda, abandonei os zagueiros que devo proteger e parti junto aos atacantes. Aquela era a minha bola, não iria deixá-la. Não seria mero espectador daquele ataque.
A torcida impulsionava o time. Inspirava o lateral, com seu barulho indecifrável, e o fazia pensar que realmente era um grande jogador. A essa altura, não entendíamos as instruções do técnico, que insistia em gesticular e esbravejar, o pedido dos companheiros, muito menos os gritos das torcidas.
Passou por um marcador, como se não houvesse ninguém em sua frente. Tabelou com o atacante, bem próximo a grande área adversária. A torcida levantou. Já não cantavam mais, não conseguiam. A apreensão impedia a coordenação necessária para isso. Eram só gritos e instruções gaguejadas ou grunhidos apontando a linha de fundo como jogada ideal.
Mas ele parou antes. Acho que não tinha mais pernas. O fato é que não tinha confiança em manter a posse de bola e executar o cruzamento, nos oito metros que faltavam para a linha de fundo.
Eu já estava na meia lua, com braço esticado. Queria aquela bola! Era o meu contra-ataque, queria finalizá-lo!
O lateral levantou a cabeça. A defesa adversária partia para cima dele, como Kamikazes, como eu fizera 26 segundos antes. Eu agitava o braço, posicionado, entrando na área. Ele escolheu seu alvo, e cruzou. A bola percorreu a parábola, deixando um zagueiro para trás, sem nem um toque. Ela buscava o centro-avante, nosso camisa nove, na altura da linha do pênalti, dois metros para a esquerda.
Marcado, ele subiu para o cabeceio. Puxado pela camisa, empurrou o zagueiro para tentar se livrar. Subiu. Com uma carga agarrada ao uniforme, subiu. Lutou contra o impulso de fechar os olhos. Espremidos e pressionados, ainda sim, estavam abertos quando a bola tocou a testa. Rotacionou a cabeça 60°, pegando o goleiro no contra-pé, encobrindo-o. Não havia nada que pudesse pará-la.
A não ser trave...
O banco de reservas parecia ter sido coreografado. Todos estavam de pé, e quando a bola tocou a trave, flexionaram os joelhos, levaram as mãos à cabeça e arregalaram os olhos. Sem emitir um som.
Diferente do meu técnico, que engasgado, só conseguia apontar para a bola.
Diferente do velho torcedor, que sentiu uma fisgada no peito e, assustado, ajoelho-se em silêncio.
E foi nesse momento que o estádio se calou. O silêncio tomou conta do lugar, talvez, por um segundo ou menos. Nenhum barulho, nem palmas, tambor, nem flashes, nem nada. A massa de ar definhou.
E a bola, que girava lentamente seus 32 gomos, do alto do poste, tomou curvilínea, a direção ao chão. Num estante, quebrou o silêncio com o toque no gramado, fugindo da pequena área. E eu sabia, era a minha hora.
Mesmo sem ouvir o som que ele não propagava. Mesmo sem ver o gesto que era feito há mais de vinte metros atrás de mim. Era certo que aquele senhor, a beira do gramado, engasgado, com os dedos trêmulos, em seta, meu técnico, apontava meu destino. “É teu, garoto! O rebote é teu!”.
Corri como pude. Com o peso dos meus quase trinta anos. De duas operações no joelho esquerdo. De uma fascite plantar. Com o peso da desconfiança do torcedor, ao me ver cruzando a linha média do campo. Corri, sabendo das minhas limitações técnicas, e me atirei contra a bola.
Pouco habilidoso, como já dissera ser, empurrei os 32 gomos de volta contra o gol. Não acertei um bonito voleio, não bati colocado. Acertei com um carrinho desastrado, mas do jeito que tinha certeza, que não erraria a bola. E, quicando ela veio, quicando ela voltou.
Exatas quatro batidas contra o solo, antes de cruzar completamente a linha do gol.
Fui tomado. Por todas as vozes do estádio! Todos os 23168 torcedores das arquibancadas. Pelos 10 que estava comigo dentro de campo. E por um senhor de 60 e poucos anos, que a beira do gramado, com os olhos marejados apontava para mim. Agradecia, congratulava e sorria, como poucas vezes vi sorrir antes.
Parecia ter sido arrebatado. Não sentia mais meus passos, apesar de estar correndo em direção ao banco de reservas. Não tinha tato, mesmo com amigos agarrados aos meus ombros. Só pensava no gol. O gol que construí desde o inicio. O cabeça-de-área, pouco habilidoso, de quem a torcida desconfiava com a bola no pé, salvou o time de um ataque perigoso, e iniciou e terminou a jogada do gol que manteve o time na terceira divisão do campeonato nacional. O segundo, e o mais importante gol da sua carreira. O gol que só o velho torcedor, que nesse momento enfartava, e com a visão turva, não viu.