segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Homem-minuto

Ecoavam vozes, tambores, palmas e cornetas. Pés batiam forte no chão, faziam toda estrutura tremer. Não dava pra entender o que diziam, parecia ter uma melodia, mas sei que eram pra mim. Todos aqueles ruídos dissonantes e eufóricos, eram pra mim! Pois, aos 42 minutos da segunda etapa, eu havia roubado a bola do meia, num carrinho certeiro. Um golpe perfeito!


Ele vinha, com o queixo erguido, e o número 11 estampado nas costas, certo de que seu destino seria a grande área. Certo de que nada o deteria. Por isso, pouco se importou com um nada habilidoso cabeça-de-área, chegava como um louco a sua frente. Bufando. Com o olhar fixo na bola.


Nesse momento era certo que o meia pensava “otário, vai ser driblado”, assim como meu técnico pensou “burro, vai ser driblado”, da mesma forma que um velho torcedor, espremido na arquibancada lotada daquele tímido estádio, pensou “Filho da puta! Vai ser driblado!”.


O camisa 11 passou o pé direito em cima da bola. Eu, o cabeça-de-área, continuei minha corrida. Ele deu um tapa na bola, para o pé esquerdo, que imediatamente devolveu a bola para o lado direito, aonde eu vinha deslizando, rasgando a grama e tirando a bola de seu controle.


Otário! Já conhecia seu drible, e já sabia onde pegaria a bola. Sem ninguém a minha frente, dominei a bola, e parti em contra-ataque.


Ele não acreditou! Ficou estático, enquanto seus companheiros de time o xingavam. Meu técnico não acreditou! Pulou, vibrou, chutou o banco de reservas e gritava pra mim “Isso, garoto!”. O velho torcedor não acreditou! Abraçou um desconhecido que estava ao seu lado, igualmente eufórico, igualmente suado e gritava “Filha da puta! Gênio, filha da puta! É seleção! É seleção!”.


O relógio então virou, cravou os 42 minutos. Eu não vi, me disseram. Mas foi exatamente nesse segundo que iniciei meu contra-ataque. Meu coração disparou, sentindo o momento. Sentindo a pressão que vinha das arquibancadas. Todo aquele ruído vinha como uma massa compacta, apertando cada músculo do meu corpo. E o carregador de piano, pouco habilidoso, puxou o que poderia ser o ultimo contra-ataque.


Próximo à linha divisória, estiquei a bola para o lateral direito. Uns quatro metros a sua frente. Agora corre, desgraçado! Diminui o ritmo, mas não parei. Abandonei meu posto, de cão de guarda, abandonei os zagueiros que devo proteger e parti junto aos atacantes. Aquela era a minha bola, não iria deixá-la. Não seria mero espectador daquele ataque.


A torcida impulsionava o time. Inspirava o lateral, com seu barulho indecifrável, e o fazia pensar que realmente era um grande jogador. A essa altura, não entendíamos as instruções do técnico, que insistia em gesticular e esbravejar, o pedido dos companheiros, muito menos os gritos das torcidas.


Passou por um marcador, como se não houvesse ninguém em sua frente. Tabelou com o atacante, bem próximo a grande área adversária. A torcida levantou. Já não cantavam mais, não conseguiam. A apreensão impedia a coordenação necessária para isso. Eram só gritos e instruções gaguejadas ou grunhidos apontando a linha de fundo como jogada ideal.


Mas ele parou antes. Acho que não tinha mais pernas. O fato é que não tinha confiança em manter a posse de bola e executar o cruzamento, nos oito metros que faltavam para a linha de fundo.


Eu já estava na meia lua, com braço esticado. Queria aquela bola! Era o meu contra-ataque, queria finalizá-lo!


O lateral levantou a cabeça. A defesa adversária partia para cima dele, como Kamikazes, como eu fizera 26 segundos antes. Eu agitava o braço, posicionado, entrando na área. Ele escolheu seu alvo, e cruzou. A bola percorreu a parábola, deixando um zagueiro para trás, sem nem um toque. Ela buscava o centro-avante, nosso camisa nove, na altura da linha do pênalti, dois metros para a esquerda.


Marcado, ele subiu para o cabeceio. Puxado pela camisa, empurrou o zagueiro para tentar se livrar. Subiu. Com uma carga agarrada ao uniforme, subiu. Lutou contra o impulso de fechar os olhos. Espremidos e pressionados, ainda sim, estavam abertos quando a bola tocou a testa. Rotacionou a cabeça 60°, pegando o goleiro no contra-pé, encobrindo-o. Não havia nada que pudesse pará-la.


A não ser trave...


O banco de reservas parecia ter sido coreografado. Todos estavam de pé, e quando a bola tocou a trave, flexionaram os joelhos, levaram as mãos à cabeça e arregalaram os olhos. Sem emitir um som.


Diferente do meu técnico, que engasgado, só conseguia apontar para a bola.


Diferente do velho torcedor, que sentiu uma fisgada no peito e, assustado, ajoelho-se em silêncio.


E foi nesse momento que o estádio se calou. O silêncio tomou conta do lugar, talvez, por um segundo ou menos. Nenhum barulho, nem palmas, tambor, nem flashes, nem nada. A massa de ar definhou.


E a bola, que girava lentamente seus 32 gomos, do alto do poste, tomou curvilínea, a direção ao chão. Num estante, quebrou o silêncio com o toque no gramado, fugindo da pequena área. E eu sabia, era a minha hora.


Mesmo sem ouvir o som que ele não propagava. Mesmo sem ver o gesto que era feito há mais de vinte metros atrás de mim. Era certo que aquele senhor, a beira do gramado, engasgado, com os dedos trêmulos, em seta, meu técnico, apontava meu destino. “É teu, garoto! O rebote é teu!”.


Corri como pude. Com o peso dos meus quase trinta anos. De duas operações no joelho esquerdo. De uma fascite plantar. Com o peso da desconfiança do torcedor, ao me ver cruzando a linha média do campo. Corri, sabendo das minhas limitações técnicas, e me atirei contra a bola.


Pouco habilidoso, como já dissera ser, empurrei os 32 gomos de volta contra o gol. Não acertei um bonito voleio, não bati colocado. Acertei com um carrinho desastrado, mas do jeito que tinha certeza, que não erraria a bola. E, quicando ela veio, quicando ela voltou.


Exatas quatro batidas contra o solo, antes de cruzar completamente a linha do gol.


Fui tomado. Por todas as vozes do estádio! Todos os 23168 torcedores das arquibancadas. Pelos 10 que estava comigo dentro de campo. E por um senhor de 60 e poucos anos, que a beira do gramado, com os olhos marejados apontava para mim. Agradecia, congratulava e sorria, como poucas vezes vi sorrir antes.


Parecia ter sido arrebatado. Não sentia mais meus passos, apesar de estar correndo em direção ao banco de reservas. Não tinha tato, mesmo com amigos agarrados aos meus ombros. Só pensava no gol. O gol que construí desde o inicio. O cabeça-de-área, pouco habilidoso, de quem a torcida desconfiava com a bola no pé, salvou o time de um ataque perigoso, e iniciou e terminou a jogada do gol que manteve o time na terceira divisão do campeonato nacional. O segundo, e o mais importante gol da sua carreira. O gol que só o velho torcedor, que nesse momento enfartava, e com a visão turva, não viu.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Invisível

São 15:22, de terça-feira. É meu oitavo mês de trabalho. Das 42 pessoas que trabalham no meu setor, apenas quatro sabem meu nome. Nem por isso conversam comigo.

Hoje cheguei atrasado. Pela terceira vez nesses oito meses. Mas pela primeira vez foi sem motivo. Alias, motivo eu tinha, era um teste. Cheguei 2 horas atrasado, entrei normalmente pela porta, encarando a todos, em busca de um cumprimento ou mesmo uma repreensão. Nada. Não notaram minha presença. Parecia invisível.

Nem mesmo meu chefe, um dos 38 que não sabem meu nome, se abalou com minha ausência. Fico pensando, qual a minha importância, aqui? E se eu deixar de fazer meu trabalho, será que vão reparar? Acho que devo realizar mais testes!

Nunca fui popular. Nem mesmo muito querido. Acho que sou o único filho único que não foi mimado pelos pais. Na escola não sentava no fundo, nem na frente. Por muitas vezes passava o recreio olhando as outras crianças brincarem. Mas lá, pelo menos, sabiam meu nome. Graças a Deus existia a chamada!

Os anos passaram, e as coisas não mudaram. Nenhum amigo, pouquíssimos colegas. Morar sozinho foi uma escolha mais do que óbvia.

Sei que existo! Faço compras, pago contas, o porteiro do meu prédio fala comigo. Às vezes até alguns vizinhos me cumprimentam! E por que 42 pessoas, quem me vêem todo dia, não? E Deus, será que Ele me vê? Será que me escuta?

Sempre ouvi que Deus tem um plano para cada um de nós. O meu deve ser algum tipo de plano secreto. Tipo "vais viver como um ninja, sem ser notado onde quer que esteja". Minha missão é não interferir no resto do mundo. Nascer, crescer e morrer sem que nada a minha volta seja alterado.

Mais um dia preenchendo planilhas. Conferindo custos, corrigindo erros e reportando-os. Um relatório que só eu faço, e tenho quase certeza de que só eu leio. Em oito meses de trabalho, as outras três pessoas que faziam o mesmo que eu, foram demitidas. Uma a uma. E por alguma razão, eu fiquei. Mesmo tendo pouca experiência. Talvez tenham esquecido de me demitir também. Mas os dados continuavam chegando, e eu continuava executando meu trabalho, mesmo sem supervisão. Mesmo sem metas, prazos ou cobranças.

Já passa da uma da manhã, e não consigo dormir. Tenho que fazer alguma coisa! 24 anos de vida ignorada. Isso tem que mudar! Não consigo para de pensar nesse absurdo que é minha vida. Eu vejo na TV filmes, novelas, séries, sempre mostram pessoas convivendo, conversando, socializando. Por mais estranha que seja a pessoa, ela nunca está só. Exceto o Tom Hanks, em Náufrago. Mas ele teria se matado, se fosse competente. Além disso, achei aquela amizade com a bola de vôlei uma babaquice.

Quarta-feira amanheceu cinza. Como minha vida. Segui no horário hoje, afinal, não tinha nada melhor para fazer. Entrei no prédio, o segurança me cumprimentou, o ascensorista não. Atravessei o corredor do meu andar procurando um bom dia, mas entre divisórias e rodinhas de bebedores de café, nem um "ar de oi" eu vi. Sentei em minha mesa, uma das poucas que não faz fronteira com nenhuma outra, e segui minha rotina.

Lá pelas 10:00 a secretária trouxe uma pilha de documentos pra mim. "As planilhas da ultima semana, Nelson." Não me cumprimentou, não perguntou como eu estava nem nada, mas pelo menos sabia meu nome. Pelo menos falou comigo. Sem jeito, agradeci com um meio sorriso e um aceno de cabeça. Não sei como falar com ela, fico meio tenso, na expectativa de ter uma conversa, e travo. Mas quando a vejo caminhando em direção a minha mesa, já crio todo nosso diálogo na cabeça. Ela me pergunta como foi minha noite, se vi algo interessante na TV, se assisti tal filme, e eu respondo tudo com naturalidade. Mas só na minha cabeça.

Agora o dia passará lento. Uma pilha de documentos para revisar, milhões de números para corrigir e a incerteza de mais um contato. A secretária só teria que falar comigo daqui uns dois dias, a simpática senhora do café às vezes esquece de me servir, meu chefe não iria me dar esporro, ou conselho, nem parabéns pelo ótimo trabalho. Há um mês, tomei coragem e fui falar com ele. Levantei receoso, com meus relatórios de erro na mão, e segui até sua mesa:

- O que é isso, rapaz? - ele realmente não sabia meu nome.

- São os relatórios de erro.

- Pára de gastar papel! Manda por email.

Fui assim que perdi a coragem e a esperança de falar com ele. Então passei a evitar sair da minha mesa.

Completei um ano na empresa. E, com a agonia me consumindo, passei a externá-la. Fui deixando a gravata de lado, logo depois a calça social, a camisa e por fim o sapato. Passei a trabalhar de jeans velho, camiseta e tênis. Quase sempre os mesmos, bem surrados. Pra falar a verdade, mal lavados e manchados. Não me preocupava mais com a minha aparência, afinal de contas, ninguém me via, mesmo.

O cabelo cresceu disforme. E não via um pente há tempos. Minha barba era rala, mas presente, uns tufos nas costeletas, outro grande no queixo e um bigode de mexicano pra completar o rosto. Eu me via estranho, mas não ligava, acho que comecei a me enxergar da mesma forma que as outras pessoas. Eu era quase que uma parte do cenário, mesmo destoando de tudo. E o pior é que ninguém estranhava, ninguém comentava. Aquele cara de camisa engomada, pra dentro da calça, e gravata, era o mesmo que o mulambo de bamba velho. As pessoas que me cumprimentavam antes, continuaram a me cumprimentar, as que me ignoravam, seguiram me ignorando.

Minha vida sem graça está cada vez mais ridícula. Sem amigos, ou namorada. Pais que quase não vejo ou falo, nem gosto mesmo deles. Vizinhos que são quase que fantasmas e um trabalho, onde o fantasma sou eu.

"Bom dia, Sr Nelson! Aceita um café?". Hoje a D. Marta lembrou de me servir. Eu só a fitei e, aceitei levemente. Estava exausto. Cansado de mais de vida, de ser ignorado, de não ter ninguém! Terminei mais um relatório. Imprimi todas as folhas. Catei aquele bolo de papel, e fui na mesa do meu chefe.

- O que é isso, rapaz?

- São os relatórios de erro.

- Pára de gastar papel! Manda por email.

Hoje não...

- Mandar por email? Tu vai ler essa porra?

- Vai logo, rapaz, manda por email.

- Rapaz é o caralho! Qual o meu nome? Fala! - Surtei.

- Que isso? Calma, garoto!

- Tu vai ler essa merda toda, porque eu vou enfiá-la no teu rabo! - Perdi totalmente o controle. Rasguei minha camisa e atirei em cima do meu chefe, juntamente com o relatório.

Fiquei totalmente nú, derrubei divisórias e pulava de mesa em mesa chutando tudo que via pela frente!

- Bando de filha da puta! Tão me vendo agora? Tão me vendo desgraçados?

Derrubei mesas, computadores, telefones. Dessa vez todos no andar olharam pra mim. Finalmente me viram, me ouviram. Olhavam estarrecidos, mas ninguém falou comigo. Só gritavam pelos seguranças, pediam ajuda, socorro. Comentava uns com os outros, desesperados "ele enlouqueceu de vez!". Destruí tudo que vi. Quebrei o que pude, até os seguranças me conterem, então desmaiei.

Três meses internado numa clínica de tratamento psiquiátrico. Sem visitas. Tomando calmantes e outros medicamentos que entortam meus pensamentos. Três meses sendo obrigado a ver um psiquiatra. Três meses com alguém sendo obrigado a me ver. Não sei mais o que real. Antes de vir para cá, andava entre as pessoas torcendo para que uma delas falasse comigo. Hoje os enfermeiros me cumprimentam, me dão os remédios. Alguns internos falam comigo, os que não falam são porque faço questão de manter distância. Todos loucos.

Mas o melhor é o doutor, meu psiquiatra. Às vezes sento e fico encarando ele. Não digo nada, mas sei que ele me vê. Sei que ele está prestando atenção em mim. No começo foi difícil. Nunca tive tanta atenção de uma pessoa só. Era estranho, prestava atenção, mas não se aproximava. Eu não entendia essa relação, até que passei a questioná-lo.

- Olha pra mim, o que você está vendo? Tem algo de errado? O que você quer? - Ele sorriu e disse que era meu psiquiatra e o que queria era minha confiança, nele e em mim mesmo.

Sempre achei que loucos eram os outros, que passavam os dias ignorando uma pessoa que está todo dia no mesmo ambiente que eles. O doutor tentou me convencer que eu, mesmo calado e distante dos outros, projetava uma imagem hostil, possivelmente agressiva. Disse que a forma que olhava para as pessoas procurando atenção, constrangia e, às vezes as assustava. Elas, na verdade, tinham medo de mim, por isso me evitavam. Ele nunca disse, mas é claro que ele também me achava maluco.

Depois disso, comecei a entender. Tinha passado 24 anos seguindo um comportamento normal, e a sociedade me ignorou. Botei o dedo na cara dela e ela me excluiu. Agora estou domado novamente (a base de pílulas). Em breve vão me devolver pra minha vida invisível. Realmente, esse era o plano de Deus. Entendi sua piada, mas não volto nem fudendo!

Deixei os remédios e abracei a loucura dos outros. Tirava a roupa, e fingia que era invisível. Quando os enfermeiros me continham, perguntava “como me pegaram? Vocês não podem me ver!”. A medicação mudava, eu fingia que tomava e me comportava. Umas semanas depois, fazia tudo de novo.

O doutor ficava puto! Mas era porque ele não entendia as piadas, nem a minha, nem a de Deus. Nós seguimos nossa rotina. Eu tentava disfarçar meus “surtos”, pois gostava dos nossos encontros. Mas não resistia, e sempre repetia “olha pra mim, doutor, o que você está vendo?”. Minha piada. Meu teste Rorschach.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Cervejas Possíveis IV

Filha de monges, cheia de segredos. Não se revela no primeiro olhar.

Me atrai só com o nome. Seduz com seu perfume, exalando pecado. Encanta a cada toque, e me arrebata no fim do encontro.

Sedutora. Pecadora. Trapista.