quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Downhill

Era a colina mais alta. Com uma inclinação de 40°, aproximadamente. A descida era irregular. Terra batida e com muitas pedras. Não era para ciclistas amadores! Antes da metade você poderia chegar a 60km/h, a velocidade final era próxima dos 90. Acionar os freios não era opção, o tombo seria certo!

Duas mãos no guidão, pé direito no pedal e esquerdo no chão. Os olhos cerrados decoravam o caminho. O trajeto era escolhido com cuidado, do cume. Observando atentamente as depressões, pedras e obstáculos.

Daquele ponto, do ponto mais alto, a descida parecia uma péssima ideia. Mas aquele era seu desafio. Ele não seria o primeiro, outros dois já a fizeram. Ele era o mais jovem, mas não havia em seu rosto qualquer traço de receio. Sabia que era possível. Sabia que estava pronto.

Pressionou os freios. Ajeitou-se no quadro de sua Caloi Cross Freedom. Com o peito do pé direito, levantou um pouco o pedal. Inspirou fundo e contou mentalmente...

“3... 2... 1!”

Em movimento simultâneos, soltou os freios, deu impulso com o pé esquerdo e pisou forte no pedal da direita, inclinado o corpo para frente. Soprou todo ar pela boca. Corrigiu a postura. Cinco pedaladas fortes, colocando todo peso do corpo em cada uma delas. Estabilizou. Os olhos na pista, tentavam seguir o trajeto planejado. Três pedaladas. Não há amortecedor. O choque do pneu com as pedras desviavam o curso. Os buracos o sacudiam. A velocidade fazia seus olhos secarem. Três pedaladas. Inclina para esquerda. Atinge 70km/h. Aperta os punhos com toda a força. O garfo vibra. Guidão vira. Ciclista cai.

Ele perdeu o controle sobre sua bicicleta, e voou sobre ela. Sentiu na pele toda irregularidade do solo. Cada pedra daqueles tantos metros em que rolou. Cada grão da terra que entrou em seus cortes.

A queda mais feia de sua vida, até então. Mesmo que não tenha sido realmente da colina mais alta. Era apenas uma ladeira. E nem tinha ideia da inclinação ou de como se media. Mesmo não tendo sido a 70km/h, talvez não tenha chegado a 20km/h. Mas o fato é que quando se tem sete anos, a próxima ladeira é sempre a mais alta. A velocidade é medida pelo vento no rosto. Os tombos são sempre os piores. E eram eles que registravam a história.

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