Pobre menina abandonada. Sozinha na varanda de casa, olhando
ao longe. O rosto ainda vermelho e úmido. Naquela manhã, seu marido a deixara,
dizendo não ter mais que fazer ali.
Nós os conhecíamos. Muito bem por sinal. Vimos o primeiro
encontro. Vimos a paixão nascer. Fomos os primeiros a saber do casamento. E
também que tudo ia mal.
Dois anos de convívio sobre o mesmo teto não lhes fez bem. Ele
parecia ter mudado, nunca queria leva-la a lugar nenhum. Estava sempre cansado,
não gostava de conversar. Ela chorava e se dizia solitária. Ele nunca a entendia.
E quando ela insistia, brigavam.
A ela, só restavam as lágrimas com os amigos, já que o marido
não lhe dava ouvidos. E só nós recebíamos seus anseios. Só nós pudemos ver seu
rosto mudando, quando saia daquela casa e encontrava a vida. Enquanto ele
estava trabalhando, viajando, ou ocupado demais.
E foram longos oito meses até que ela tomasse coragem, e
despejasse toda sua frustração de seu peito! E Eram tantas palavras que o atingiam,
que ficou atordoado. Negava as reclamações com respostas gaguejadas. Até que
percebeu que aquilo não era um pedido de atenção, era um comunicado de despejo.
E ele saiu. Ressentido e com um buraco no peito. Apesar de
tudo, ele a amava.
E nós percebemos isso. Dessa vez não fomos os primeiros. Certamente
não fomos os últimos, mas o fato que percebemos muito tarde.
Ao reencontra-lo e ver que ele ainda não entendia o que
tinha feito de errado. Notar o carinho com que dizia o nome dela, e seu rosto
se iluminando a cada lembrança de seus momentos.
E nossos encontros passaram a ser mais frequentes, já que ele
não precisava trabalhar tanto quanto antes. Foi quando começamos a perceber o
porquê sua ausência em casa. Perceber que ele queria descansar em casa, junto
da sua mulher.
Num desses encontros, vimos a decepção apertar seu peito,
quando contamos que ela estava com um novo amor. E que esse amor, já era alguém
conhecido. Alguém pra quem ela chorava suas mágoas.
Ele então admitiu a derrota.
E a nós, sobrou o arrependimento. De todos os conselhos
errados que demos a ela. De não perceber que ele trabalhava demais para
sustenta-la. Pagar a casa, e sua faculdade. Que ele evitava os conflitos para
tentar aproveitar os poucos momentos juntos. E de, assim como ele, não ter aceitado
que ela já não o amava há tempos.
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