quarta-feira, 29 de maio de 2013

Condenado

Os braços abertos, com os cotovelos formando um ângulo reto perfeito. As mãos espalmadas, tensas, mostrando claramente que estava desarmado e sem nenhuma intenção de reagir. O joelho direito tocava o chão, deixando-o em posição de submissão.
Mas nada mostrava a derrota melhor que seu rosto. Olhos escancarados, que tremiam de um lado para o outro, mas nunca fechavam. Nem uma piscada. A testa suada, transbordando aflição. A boca tentava abrir, mas a mandíbula não se mexia. Queria gritar “não”. Queria dizer “espera”, mas a boca foi secando desde os lábios até a garganta, e se recusava a engolir. E permaneceu estático.
Nada mexia, nem a seu redor. Desde que a porta abriu com um chute. Desde que, num movimento, saltou da cadeira e ajoelhou no chão. Precisamente às 17 horas e 37 minutos. Desde esse momento, tudo parou. Até os ponteiros do relógio.
Só uma coisa ainda se movia: seu pensamento! Ajoelhado em rendição, apavorado, encarando o lado errado da mira, revisou toda sua vida. Pensou nas discussões de trânsito, brigas com vizinhos, com garçons, nas humilhações juvenis e não encontrava a resposta.
Não via saída. Encontrara seu algoz, que o julgou e condenou. Foi subjugado por um dedo em riste apontado para sua testa. O indicador cruel carregado de ódio. Não precisava ser verbalizado, o sentimento era evidente. Os olhos saltavam, e o peito se enchia em revolta. Até que transbordou, e a boca disparou um brado:
- EU NÃO CONCORDO COM VOCÊ!

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